Capítulo 1 §Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares


Capítulo I – Canto das baleias


Naquela manhã Lucas acordou sentindo-se especialmente inquieto. Ele não sabia explicar o motivo. A sensação era de que ainda estava sonhando. Mas estava de olhos abertos.


Olhou à sua volta e, por um momento, não soube ao certo onde estava.


O ambiente parecia diferente. Era seu quarto. Mas ao mesmo tempo não era.


Ele tentou levantar-se de sua cama, porém, algo o mantinha ali. Imóvel. Arredio. Preso ao colchão.


Lucas sentia-se incomodado. Mas, ao analisar sua situação, pensou que, talvez, seus membros estavam dormentes, por isso não conseguia se levantar.


A estranheza do ambiente foi se acabando, mas sua inquietude só ia aumentando.


Ele pensou: “Oras, acho que estou sonhando que acordei e achei que estava dormindo. Talvez, na verdade, isso ainda seja um sonho, portanto, não me importo de ficar mais alguns minutos aqui parado. Se estou sonhando não preciso ir à escola”.


Mas ele estava enganado. Conforme percebeu alguns minutos depois…


Enquanto estava ali, parado em sua cama, Lucas não pode deixar de analisar seu quarto. Ele observava o ambiente à sua volta e parecia que nunca havia olhado realmente para aquele lugar. O azul da parede parecia mais profundo, quase como um oceano tranquilo, a cor do alto-mar onde vivem as baleias. Por um instante ele acreditou ter ouvido o som de baleias. Mas isto era impossível, porque ele estava em seu quarto. Mas, se estivesse sonhando que estava em seu quarto, não seria impossível ter ouvido baleias.


Lucas realmente abraçou a ideia de que estava sonhando e se entregou às diversas sensações que acometiam seu corpo. Apesar de encontrar-se imóvel, deitado na cama, ele conseguia mexer seus olhos. Ele percorreu todo o ambiente com seus pequenos olhos cor de jamelão. Agora ele conseguia, além de ouvir o canto de baleias, sentir o cheiro de água salgada, um odor de maresia tão intenso e forte que chegava a ser palpável (claro que ele não podia tocar o odor, até porque ele encontrava-se imóvel e os odores não podem ser tocados, apenas sentidos).


O teto de seu quarto, azul claro, da cor do céu pela manhã, sempre transmitiu tranquilidade para Lucas, ele adorava observá-lo pela manhã, antes de se levantar e tomar seu café. Porém, naquele momento em especial, no sonho acordado ou no acordar sonolento, Lucas não sentia tranquilidade ao olhar para o azul claro do teto de seu quarto. A inquietude tomava conta de seu interior e a cor do céu parecia possuir uma tonalidade tempestuosa. Ele sentia que, a qualquer momento, trovões iam rugir e a chuva começaria a cair. Na verdade, a cor estava tão absurda que, ao invés de parecer um céu pela manhã, o teto de seu quarto havia adquirido uma cor cinzenta, um branco sujo, algo obscurecido, bem parecido à formação de temporais e tornados. Isso incomodava Lucas, ele não podia se mexer e, vendo aquele teto tão obscuro, acreditava que se houvesse realmente uma tempestade dentro de seu quarto ele estaria acabado. Com certeza ficaria submerso, inundado, naufragado em sua própria cama.


Bem que sua mãe falou para não comer aquela quantidade de doces antes de dormir. Mas ele não conseguia evitar! Sempre que fazia sua maratona de filmes ele sentia uma necessidade SUFOCANTE de comer seus doces. Assistir aos filmes sem comer os doces não era a mesma coisa! Porém, agora, ao encontrar-se imóvel em sua cama, ouvindo o canto das baleias e sentindo a tempestade se aproximando, Lucas chegou à conclusão de que, mais uma vez, sua mãe estava certa e, se saísse daquela situação, nunca mais comeria doces antes de dormir. Na verdade, se levantasse daquela cama, nunca mais comeria nenhum doce!


O azul profundo das paredes, o canto das baleias, o cinza tempestuoso do teto, a imobilidade encima da cama... A inquietude de Lucas estava se transformando em desespero. Ele queria acordar. Ele PRECISAVA acordar. A sensação de que algo ruim aconteceria se permanecesse ali só ia aumentando. Mas o que ele podia fazer? Ele estava imóvel, preso ao colchão, vinculado aos lençóis. Foi então que ele ouviu, vindo lá debaixo, a voz de sua mãe:


- Lucas, querido! Levante logo e tome seu café da manhã. Você vai acabar se atrasando para a escola. Beijos. – Quando terminou a fala, sua mãe saiu, batendo a porta da frente.


Agora ele estava encrencado! Lucas percebeu que não estava sonhando coisa nenhuma, ele estava acordado, bem acordado! Imóvel, preso à cama, ouvindo canto de baleias, sentindo uma tempestade se formando em seu quarto e, ainda por cima, sua mãe acabara de sair para o trabalho, ou seja, ele estava sozinho!


Aquilo o abateu terrivelmente. Fechou seus olhos, tentando colocar a mente e os pensamentos em ordem. O que fazer? Ele se lembrou de um poema que sua mãe costumava recitar quando ainda era um garotinho, sempre se sentiu mais calmo ao ouvir aquele poema:


“Veleje, veleje, pequeno barquinho,
Afaste-se da terra dos moinhos.
De encontro ao alto-mar, siga em frente,
Buscando os tesouros de nossa gente.
No azul profundo eles se escondem,
Chamando e cantando, as sereias respondem.
Que será daquele menino?
Velejando, velejando, em seu pequeno barquinho?”


Ele nunca soube o motivo de o poema deixá-lo tão calmo. Na verdade, não via muito sentido no poema. De maneira nenhuma. Mas, agora, de olhos fechados, recitando o poema repetidamente em sua mente, Lucas não conseguia deixar de associá-lo ao que estava acontecendo neste exato momento.


O poema fala de um menino, velejando em um barquinho. Até aí tudo bem, mas, “no azul profundo eles se escondem”, as paredes de seu quarto eram de um azul muito profundo (tanto que estava até ouvindo o canto de baleias que vivem em alto-mar), ele não conseguia deixar de sentir que o poema não veio a calhar neste momento. Ao invés de sentir-se mais tranquilo, ele estava ficando apavorado... “Chamando e cantando, as sereias respondem”, será que, de alguma maneira, o som que ele estava ouvindo não era de baleias e sim o canto de sereias? Como se ouvir som de baleias não fosse estranho o suficiente!


Ainda de olhos fechados, repetindo o poema internamente, Lucas “que será daquele menino?”, sentiu acender dentro de si algo que nunca havia sentido antes. Uma determinação absurda foi tomando conta de si, “velejando, velejando”, uma força crescendo, se expandindo, inebriando e enchendo-o de vitalidade. “Que será daquele menino?” Lucas repetia, repetia, repetia o poema. Até que... ele conseguiu mexer seus braços.


*Leia o Capítulo II

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