Capítulo 2 §Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares


*Se você ainda não leu o Capítulo I do livro "Tempestade Interior", clique aqui: Capítulo I


Capítulo II – Aprofundando no azul profundo

“De encontro ao alto-mar, siga em frente”

Ele abriu os olhos. Por um momento não pôde acreditar. Seus dedos, suas mãos e braços voltaram a responder seus comandos! Ele deixou de repetir o poema em sua mente e concentrou-se em erguer seus braços, tentando alcançar o criado mudo, para apoiar-se e tentar erguer o corpo.

Não adiantava muito ter o movimento dos membros superiores sendo que os inferiores ainda encontravam-se imóveis. Mas era um alívio e como era!

Lucas fez tanta força e esforço até que alcançou o criado mudo com seu braço esquerdo. Ele forçou e puxou e se apoiou, jogando seu peso para o lado, até que conseguiu erguer seu tronco. Na realidade percebeu que, além dos movimentos dos membros superiores, conseguia também mover seu tronco, bem como sua cabeça. A partir de todo esse esforço ele conseguiu sentar-se na cama.

Agora, tentando colocar ordem em seus pensamentos, buscando uma solução para sua situação ele voltou a observar o quarto à sua volta. As paredes de um profundo azul, agora não o assustavam tanto. Na verdade ele estava se acostumando a elas. A sensação de estar submerso, a inquietude do canto das baleias (ou seriam sereias?) ainda o incomodava, porém, a profundidade que sentia ao olhar para as paredes ia se dissipando. O teto cinzento e tempestuoso também não o incomodava mais. Sinceramente, sua cor até que combinava com as profundas paredes azuis. O quarto em si parecia uma grande tela em três dimensões, representando uma cena em alto-mar, mostrando um oceano ainda tranquilo, esperando o início de uma gigantesca tempestade. Lucas era o capitão que encarava as profundezas do mar. Preso em seu barquinho, sem poder sair do lugar.

Ele levou suas mãos ao rosto e esfregou os olhos, como se este gesto fosse fazer tudo mudar ou a situação melhorar. Mas nada mudou. Ainda encontrava-se em sua cama (agora sentado), ouvindo o canto das baleias (sereias?) e sentindo a maresia.

Retornou a fechar os olhos. Repetindo o poema como um mantra em sua mente, como se, repetindo-o diversas vezes, a solução para seus problemas fossem surgir como rimas do poema.

A cada vez que entoava o poema em sua cabeça ele parecia distinguir diferentes sons no canto das baleias. Antes ouvia apenas sons, barulhos guturais, característicos das baleias, porém, agora, depois de toda a repetição dos versos em sua mente, parecia que ele estava ouvindo palavras, estava conseguindo distinguir versos no canto das baleias (ou sereias?). Como se elas ouvissem-no entoando o poema em sua mente e respondiam. A cada verso que dizia para si, outro verso era dito por elas.

“Será que estou enlouquecendo?”. Lucas pensou.

Ele apertou os olhos, com muita força. Parou de entoar o poema, porém, elas não pararam. “Chamando e cantando as sereias respondem”. O canto tornava-se cada vez mais claro, mais nítido e audível. Definitivamente: não podia ser o canto de baleias. Baleias não falam! “Que será daquele menino?

A inquietude desesperadora foi tomando conta de Lucas. O temor, o pavor e o odor da maresia eram muito fortes. Ele não aguentava mais. Isso precisava parar. Não dá mais para ficar imóvel, sem fazer nada… “CHEGA!”. Ele gritou.

Por um momento o silêncio tomou conta de seu quarto. O teto parecia não mais cinzento como antes. As profundezas de suas paredes, de alguma maneira, tornaram-se rasas. A maresia ainda chegava à suas narinas, porém, não era tão forte.

Ele retirou as mãos do rosto. Abriu os olhos. Respirou fundo, tentando acalmar-se. Queria gritar para sua mãe, mas sabia que ela já havia saído.

Olhou a sua volta, buscando alguma solução. Foi quando percebeu que, sem saber como, suas pernas estavam se mexendo. Ele não estava mais imobilizado em sua cama. Lucas pôs os pés no chão, desprendendo-se do colchão e desvinculando-se dos lençóis.

     Ele se levantou.


*Leia o Capítulo III

Nenhum comentário:

Postar um comentário