Capítulo 3 - Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares

   

     *Se você ainda não leu os primeiros capítulos do livro "Tempestade Interior", clique abaixo:




Capítulo III - Navegando em águas turvas

Lucas Negri nunca foi o melhor aluno da sala. Na verdade, suas notas sempre foram bem medianas. Mas ele era esforçado, dedicado e, acima de tudo, adorava estudar.


Um garoto tímido, no auge de seus doze anos, não sabia muito bem socializar com seus colegas de classe. Buscava refúgio diariamente em seus livros, nas incríveis fantasias e universos mágicos que existiam nas palavras. Ele era obcecado por magia, animais fantásticos, criaturas bizarras que não existiam em seu mundo. Sempre quis ser um cavaleiro e viver várias aventuras salvando aldeias, lutando contra dragões, desfazendo feitiços de bruxas malignas e resgatando jovens donzelas em perigo. Já se imaginou voando num pégaso ao pôr do sol, trotando num unicórnio florestas adentro e mergulhando com crocodilos gigantescos dentro de pântanos esverdeados e gosmentos.


Dita Negri, sua mãe, entendia as dificuldades do filho em socializar com os outros. Ela também havia sido uma criança tímida, que não gostava muito de conversar. Mas, em sua infância, ela não teve tanto acesso à literatura para recorrer quando precisava se refugiar do mundo à sua volta, portanto, sempre criou suas próprias histórias fantásticas, cheias de aventuras e peripécias. Dita incentivava seu filho quanto à leitura. Na verdade, todos os dias, eles realizavam uma leitura juntos. Às vezes liam livros de fantasmas, de dragões, de cavaleiros em armaduras brilhantes, mas, seus momentos favoritos, eram aqueles em que os dois, juntos, criavam histórias. Muitas vezes ela iniciava e dava a deixa para que Lucas continuasse e daí para frente as histórias ficavam cada vez mais elaboradas e mirabolantes. Houve uma noite em que eles se empolgaram tanto com uma história sobre uma menina órfã que foi criada por uma família de pescadores e acabou sendo tragada para dentro da terra num terremoto estrondoso que assolou a vila em que vivia, acabando, assim, dentro de um mundo subterrâneo povoado por pessoas feitas de pedra e minhocas gigantes que eram utilizadas para a criação de túneis e estradas que eram tão imensas que mais pareciam um enorme labirinto, que, quando Dita e Lucas se deram conta, já eram duas horas da manhã! Neste dia os dois acordaram super cansados e com cara de quem havia sobrevivido a um apocalipse zumbi.


Apesar de serem apenas os dois vivendo sozinhos em casa, Dita gostava de acreditar que eles eram felizes. O pai de Lucas os havia abandonado assim que ela descobriu estar grávida. Mas foi melhor assim, ele não era um bom companheiro e, na realidade, a única coisa boa que ele fez por ela foi ajudá-la a conceber seu precioso filho.


Lucas compreendia toda a situação de seus pais e, por ter uma mãe tão maravilhosa, ele nunca sentiu a necessidade de buscar conhecer seu pai. Se ele havia decidido abandoná-los, por que procurá-lo? Eles estavam melhores com suas histórias e sem ele.


  


No momento em que se levantou Lucas não pôde deixar de sentir uma euforia extasiante! Ele pulou e rodou com os braços para o alto gritando:


— Eu to em pé! Eu to em pé! Eu to em pé!


Mas, quando ele estava no meio daquilo que considerava como sua dança da vitória, Lucas ouviu mais uma vez o canto que vinha das paredes do seu quarto. Porém, desta vez, os sons que chegavam a seus ouvidos não eram os versos do poema. Em meio aquela melodia que, apesar de assustadora, era completamente envolvente e doce, Lucas conseguiu distinguir algumas palavras.


— Salvador… Frio… Perigo… Ajuda…


Ele congelou. Seu sangue pareceu esfriar dentro de suas veias. Seu corpo todo se retesou e ficou duro feito uma estátua em pé. O que será que aquelas palavras significavam?


Por um momento ele ficou remoendo aquelas palavras dentro de sua mente, segurando a respiração, como se isso fosse ajudá-lo a pensar melhor e afastar as vozes. Porém, assim que aquelas palavras foram ditas, o silêncio tomou conta de seu quarto. Lucas que, sem perceber, havia fechado os olhos com força enquanto prendia a respiração e ficava parado feito uma estátua, abriu-os e viu que  as paredes de seu quarto estavam normais, nada de cor de alto-mar ou cheiro de maresia, muito menos céu cinzento esperando a chegada de tempestades monstruosas. As paredes estavam no mesmo azul profundo de sempre e o teto com aquela tonalidade clara de céu pela manhã.


Respirando fundo três vezes ele decidiu: agora era a hora de sair dali e encarar o que quer que tenha sido aquilo tudo. Mas, primeiro, ele precisava forrar o estômago, afinal, saco vazio não para em pé e, sem nada na barriga, ele iria delirar muito mais. Talvez tudo aquilo tenha sido uma mistura de enjoo por conta dos doces da noite anterior e a falta de algo realmente substancial em seu organismo. Muito açúcar faz mal. Algum cientista havia dito isso.


Andou calmamente pelo corredor até chegar à escada que dava acesso ao andar de baixo. Desceu os degraus pausadamente, com medo de que, a qualquer momento ou movimento brusco que fizesse, voltaria a ouvir aqueles sons e sentir aquele cheiro inebriante.


Assim que chegou ao final da escada Lucas olhou de um lado para o outro, como que para confirmar se estava realmente sozinho e se não havia nenhum barulho estranho vindo da sala ou da cozinha.


Sua casa não era nem grande nem pequena, na verdade, era do tamanho ideal para ele e sua mãe. No andar de baixo ficavam a sala, a cozinha e uma pequena área de serviço, ao subir as escadas estavam os dois quartos, o banheiro e um pequeno cômodo que eles chamavam de “quarto da bagunça”, onde guardavam coisas antigas e tudo aquilo que a gente sempre sabe que precisava jogar fora mas que nunca realmente tem coragem de se desfazer.


Caminhando com cautela ele foi até à cozinha. Na pequena mesa estava o café da manhã. Sua mãe havia preparado suco de laranja, uma garrafa de café (mesmo sabendo que café em excesso pode fazer mal os dois tomavam muito café, talvez seja um mal daqueles que são leitores compulsivos, afinal, um bom livro e uma xícara de café são a dupla perfeita), um misto quente e, também, havia deixado sobre a mesa a caixa de cereais e o leite. Quando viu tudo aquilo o estômago de Lucas respondeu imediatamente com um enorme ronco, a vontade de comer era tamanha que o garoto deixou a cautela de lado e correu para a mesa, sentando e servindo-se de tudo um pouco.


Quando estava saciado (depois de ter comido o misto quente, bebido dois copos de suco de laranja, duas xícaras de café e uma tigela de cereais com leite) ele apoiou os cotovelos na mesa, repousando a cabeça em suas mãos. E agora, o que fazer?


   


Depois de vagar alguns bons minutos dentro do ônibus lotado àquela hora da manhã, Dita Negri havia chegado a seu trabalho. Ela trabalhava numa loja de antiguidades. O dono da loja, seu patrão, era o Senhor Nestor.


Dita não tinha o que reclamar de seu trabalho nem de seu patrão. Seus horários não eram abusivos, o salário que recebia era o suficiente para que ela e Lucas vivessem dignamente e, além de tudo, ela tinha contato com peças maravilhosas e pequenas preciosidades que se encontravam na loja.


O Senhor Nestor encontrava-se já a beira de seus noventa anos, porém, a vitalidade e jovialidade que ele tinha eram surpreendentes! Qualquer um que o conhecesse ficaria impressionado em saber que um senhor de quase noventa anos era tão falante, alegre, brincalhão e vivia viajando. Todas as peças vendidas na loja de antiguidades eram selecionadas pelo Senhor Nestor. Algumas eram muito antigas, de valor inestimável, frutos de suas andanças e viagens por todo o mundo. Outras eram mais recentes, encontradas nas últimas desventuras feitas pelo jovem senhor. Mas o que Dita mais gostava eram as histórias que acompanhavam as peças. Para cada peça da loja, Senhor Nestor tinha uma história mais incrível que a outra. A favorita de Dita envolvia um abajur marroquino, cheio de cristais e que, quando aceso, reluzia um brilho fantástico e pequenos espectros coloridos na parede. Seu patrão conta que, há alguns anos atrás, numa viagem ao Marrocos, ele acabou sendo sequestrado por um grupo de beduínos enquanto fazia um passeio à noite pelo deserto.


— Veja bem minha filha, hoje eu sei que andar à noite, sozinho com o camelo no deserto, não tenha sido uma das minhas ideias mais brilhantes. Mas eu era jovem, tinha apenas 47 anos naquela época, não tinha muita sabedoria de vida. – enquanto falava Senhor Nestor sempre mantinha um ar sério, mas, assim que terminava de falar, dava umas gargalhadas que enchiam todo o ambiente e contagiavam quem quer que estivesse por perto — Estava eu, encima do camelo, usando meu turbante, me sentindo um próprio xeique quando, de repente, vejo aquela poeira na areia do deserto. Meu sangue gelou na hora. Mas tentei manter a calma, afinal, me desesperar não ia adiantar de nada. Segui em frente avançando naquela velocidade de lesma a qual os camelos andam, enquanto a poeira ia aumentando e se aproximando cada vez mais de mim. Passei a perceber também o som de cascos de cavalo e gritos estranhos. Quando dei por mim já estava cercado dentro de um círculo formado por homens montados em belíssimos cavalos, cobertos dos pés a cabeça, apenas com os olhos de fora. Um fortão que, depois descobri ser o líder deles, apontou a espada para mim.


— O que você faz em nosso território alma pálida? – Disse o beduíno chefe.


— Boa noite caro senhor! Nesta noite fresca decidi vir dar um passeio à luz da lua e contemplar essa paisagem maravilhosa que vocês têm aqui. Não sabia que era seu território. Se soubesse teria pedido permissão para entrar e admirar essas grandiosidades esplêndidas que vocês possuem! Mil perdões!


— Guarde sua eloquência e suas bajulações para outro, alma pálida. Você vem conosco, terá de responder tudo o que perguntarmos e vai pagar caro por ter invadido nosso território sem permissão.


— Isso não será necessário meu xeique. Vou com vocês de bom grado, só peço um minuto para contemplar mais um pouco esta paisagem sensacional.


— Seu tempo para observar e contemplar acabou. Cale a boca e venha conosco. Rapazes peguem as rédeas de seu camelo e tragam-no até o acampamento norte. – gritou o líder.


Neste momento, minha querida Dita, achei prudente permanecer em silêncio, percebi que o beduíno líder (que mais tarde descobri que se chamava Khaled) não estava interessado em minhas desculpas e pelo olhar dele nada do que eu falasse adiantaria muito. Ele estava decidido a me levar ao acampamento e me interrogar, achando que eu era um espião de uma tribo rival. Portanto, calei minha boca e me deixei guiar pelos beduínos. Percorremos durante alguns minutos uma boa extensão de dunas de areia em um silêncio profundo, ouvindo apenas alguns uivos esporádicos vindos de animais que até hoje não sei o nome.


Chegamos ao acampamento e eles logo me fizeram descer do camelo. O acampamento possuía grandes tendas, todas em cores opacas, beges, amareladas e caramelo, para poderem se camuflar melhor na areia do deserto. Os beduínos levaram-me até a maior das tendas, onde havia outros beduínos reunidos sentados em grandes almofadas e fumando narguilé. A tenda estava cheia de fumaça, com um cheiro forte, porém delicioso e inebriante, todos pareciam mais tranquilos ali. Porém, assim que entramos, alguns beduínos levantaram-se subitamente indagando ao grupo que me sequestrou sobre quem era eu e o que estava fazendo ali.


— Achamos esta alma pálida vagando a leste daqui. – disse o líder do grupo que me sequestrou.


— Vocês estão fora de si de trazerem uma alma pálida para dentro de nosso acampamento sagrado! Eles não podem entrar aqui. Irão descobrir nossos segredos e localização e contarão para todas as tribos. Não podemos ser descobertos. Ele precisa morrer! – gritou um beduíno de quase dois metros de altura e profundos e penetrantes olhos escuros.


— Acalme-se Ahmed! Eu sei o que estou fazendo. Resolvi trazer esta alma pálida até aqui, ao invés de matá-la, para podermos interrogá-la e descobrirmos quem está nos espionando. Eu tirarei todos os segredos de dentro dele, senão não me chamo Khaled Al-Nazir!


Neste momento a tenda ficou em completo silêncio. Os beduínos que haviam se levantado sentaram, retomando seus afazeres e fumando seu narguilé, inclusive o enorme beduíno de nome Ahmed que havia confrontado Khaled.


Levaram-me até o centro da tenda, organizando as almofadas e colocando-se em círculo a meu redor. Ataram minhas mãos, mas deixaram meus pés livres. Khaled permaneceu em pé, de frente para mim.


— Você estranho, diga-nos: quem o enviou para espionar nosso território e descobrir nosso acampamento?! – a voz dele era forte como um trovão e preenchia todo o ambiente, a fumaça do narguilé e os olhares penetrantes dos beduínos fizeram todos os pelos do meu corpo arrepiarem. Permaneci em silêncio. As palavras pareciam ter fugido de minha boca.


— Fale ou enfrente a fúria da minha lâmina!


— Eu… não sou espião. – minha voz saiu feito um ganido. Fraca e frágil. Baixa e submissa.


— Fale a verdade alma pálida! Seu tempo está contado! Quanto mais mentir, pior a sua situação ficará!


— Não sou espião de ninguém. Meu nome é Nestor. Estou viajando pelo Marrocos e, nesta noite, decidi fazer um passei de camelo para observar as dunas e contemplar a lua. Eu não queria causar problemas a ninguém. Pegue minha bolsa, olhe meus documentos. Meu passaporte vai confirmar quem eu sou. Eu viajo pelo mundo a procura de peças e artefatos para vender em minha loja.


— Um ladrão então? Você foi enviado para saquear e roubar nossos tesouros, é isso mesmo alma pálida!? Prepare-se para ter sua cabeça separada de seu corpo…


— Não, não! Por favor, grande Khaled! Não sou um ladrão. Possuo uma loja de antiguidades, vendo de tudo nessa loja. Viajo o mundo inteiro a procura de peças diferentes e únicas para vender. Não sei de tesouro nenhum. Como disse, eu só estava fazendo um passeio à luz da lua.


Os beduínos sentados se entreolharam, alguns com suspeita nos olhos, outros indiferentes, uns preocupados apenas em fumar seu narguilé e uns poucos com olhares que diziam estar sedentos por sangue, sendo eu inocente ou não, para aqueles, o que importava era eu acabar morto.


Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos e as palavras, a fim de me expressar melhor e conseguir uma solução para aquela enrascada. Foi quando entrou na grande tenda uma garotinha coberta dos pés a cabeça, ela dirigiu-se diretamente para onde Khaled estava.


— Papai, mamãe quer saber que horas você vem. O jantar já está pronto e se você demorar mais um pouco ela disse que vem te buscar.


Alguns dos beduínos deram risadinhas, mas Khaled olhou-os severamente e, da mesma maneira que surgiram, os risinhos desapareceram.


— Fatiha minha filha, diga para sua mãe que estou resolvendo um assunto de importância, vocês podem comer sem mim. Assim que terminar isto aqui vou direto para casa.


A menina olhou-me de lado, parecendo me notar pela primeira vez.


— Uma alma pálida! Papai, o que ele está fazendo aqui, veio nos matar!?


— Mas eu não vou matar nem roubar ninguém…


— Cale-se alma pálida! Minha filha; capturei este estranho e estou interrogando-o para descobrir quais seus propósitos aqui em nosso território. Isto pode levar algum tempo, vá para casa jantar com sua mãe.


— Ah, mas agora eu quero ficar aqui. Nunca vi uma alma pálida antes.


— Ele pode ser perigoso Fatiha, vá para casa. E não se fala mais nisso.


— Piedade, por favor. Eu não sou ladrão nem espião. Apenas um viajante que estava no lugar errado, na hora errada. Tenham piedade. Estou exausto, cansado e com fome. Deixem-me ir. Ninguém vai saber que encontrei vocês, nem seu acampamento. Na verdade eu nem sei como chegar aqui, vocês que guiaram meu camelo. Levem-me de volta, me libertem, eu mesmo acho o caminho pro meu hotel. Parto no primeiro avião. Vocês nunca mais ouvirão falar de mim. Por favor, tenham piedade.


— Tadinho papai, não tem como esta pobre alma pálida ser um ladrão. Olha pra cara dele. Ele está faminto. Vamos levá-lo para casa e dar de comer para ele. Por favor. Por mim.


A tenda encheu-se de burburinhos. Alguns beduínos olhavam para mim, Nestor, ali no meio da tenda, amarrado, não conseguiam me ver como uma ameaça. Na verdade não poderia ser mais patético. Alguns acenavam com a cabeça, concordando com a pequena Fatiha, outros olhavam para Khaled, aguardando a resposta do chefe.


— Minha filha; acho que você pode ter razão. Olhando esta criatura agora, realmente, ele não tem ar de espião e muito menos de um ladrão perigoso. Vamos levá-lo até nossa tenda e dar um prato de comida para ele. Mas ouça bem alma pálida: você vai como meu prisioneiro, nem pense em aprontar nenhuma gracinha, senão sentirá a fúria da minha lâmina!


— Ai papai, não precisa falar assim também. Coitado, olha a cara de assustado desse homem. Vamos, tire as amarras dessa pobre criatura. Você não vai nos fazer mal não é senhor? – a pequena Fatiha tinha uma voz doce e um ar angelical, mas, ao mesmo tempo, era firme em suas palavras. Tinha uma grande semelhança com seu pai Khaled.


— Sim mocinha. Eu juro. Eu prometo. Não vou fazer mal a ninguém. Só quero seguir o meu caminho e ir embora. Juro solenemente não fazer nada contra seu povo. – minha voz parecia mais uma prece, uma súplica daqueles fiéis mais devotos que vão todo domingo à igreja.


— Pois bem. Está decidido. O estranho, alma pálida, vai comigo até minha tenda. Darei comida e bebida. E o interrogarei durante o jantar. Se eu decidir que ele é um espião, será executado ainda esta noite.
Khaled tirou minhas amarras e guiou-me para fora da grande tenda. Acompanhados por Fatiha seguimos em frente, passando por outras cinco tendas menores até chegarmos à outra também da cor da areia e com duas tochas iluminando a entrada. Eles me levaram para dentro, onde se encontrava a esposa de Khaled e mãe de Fatiha, uma bela mulher de aspecto sereno, mas com olhar expressivo. Seu nome era Lachita.


— Marido, quem é este? Uma alma pálida em nossa aldeia. Como isso foi acontecer?


— Calma esposa; até o fim da noite descobriremos isso tudo. Talvez ele seja um espião, um ladrão ou, talvez, tudo não passe de um mal entendido. Você e Fatiha me ajudarão a decidir. Mas agora vamos sentar e comer, já passou da hora.


Khaled, Lachita e a pequena Fatiha sentaram-se para comer e eu fiquei num lugar de frente para Khaled.


A refeição estava uma delícia. Não sei se minha fome estava muito grande ou se Lachita era uma grande cozinheira. Mas posso dizer que, apesar da situação inconveniente em que me encontrava, aproveitei bastante a refeição. Lachita havia preparado Tagine, uma comida típica marroquina que ela fez com vegetais; usamos o pão como utensílio, ao invés de garfos e facas, e comemos com a mão direita. Tinha também uma porção de azeitonas. Durante todo o jantar permanecemos em silêncio. Khaled tentou fazer-me algumas perguntas, mas Lachita lançou-lhe olhares severos e ele logo se calou.


Depois do jantar ela nos serviu um chá de hortelã. Foi quando Khaled decidiu iniciar as perguntas.


— Alma pálida. Agora que já forrou seu estômago e os ânimos já foram acalmados graças a minha pequena Fatiha e minha grande Lachita diga-me a verdade: quem é você e o que fazia vagando em nosso território? – o tom de voz de Khaled já não era tão duro e severo como na grande tenda, a companhia da filha e da esposa parecia acalmá-lo.


— Grande Khaled. Tudo o que eu disse antes era verdade. Meu nome é Nestor Soterno. Possuo uma loja de antiguidades situada na rua Netinho Begri, nº 240, Bairro das Graças, na cidade Tedesco, no estado Nazareno, Brasil. Viajo o mundo, percorrendo vários lugares diferentes a procura de peças e artefatos antigos e preciosos, a fim de vendê-los em minha loja. Esta é minha última noite no Marrocos, não consegui encontrar nenhuma peça que me chamasse atenção e se conectasse comigo, portanto, resolvi adiantar meu voo para amanhã às 8 horas da manhã. Por se tratar de minha última noite, resolvi alugar um camelo e dar uma volta para contemplar a lua e admirar as belas paisagens existentes aqui no deserto. Não sabia que este território era habitado por vocês e não queria de modo algum invadir suas terras. Mais uma vez peço perdão se os ofendi e se entrei em seu lar sem pedir. Não tinha a intenção de ser um estorvo para ninguém.


Khaled, Lachita e Fatiha se entreolharam. Khaled permanecia sério. Lachita parecia comovida e demonstrava acreditar em minha história. A pequena Fatiha falou:


— Senhor Nestor, eu acredito em você. Desculpe-me, mas, você não tem cara de ladrão, muito menos de espião. E também eu não consigo imaginar nenhuma tribo rival contratando uma alma pálida para espionar as nossas terras. Até porque, se você fosse um espião, não ia ser pego tão fácil assim dando sopa em nossas dunas. Papai, acho que você devia deixá-lo partir.


— Senhorita, o que você não tem em idade, compensa em sabedoria. Obrigado pelo voto de confiança!


— Marido; devo concordar com Fatiha. Não consigo ver este estranho como uma criatura que possa nos causar perigo. Acredito no que ele diz.


— Acho que tudo não passou de um grande mal entendido. Conferi os documentos presentes na bolsa dele e eles comprovam que ele é quem diz ser. Senhor Nestor, alma pálida, você não é um espião nem muito menos um ladrão. Apenas uma alma pálida vagando na escuridão. Você está livre para voltar para sua terra.


— E é bem-vindo para voltar sempre que quiser! – a doce Fatiha exclamou.


— Fatiha, também não é para tanto. – Khaled advertiu.


— Muito obrigado pela generosidade de vocês. Entendo a preocupação para com os estranhos. Vocês têm razão em manter e preservar sua cultura para que ninguém a destrua. Pelo pouco que vi vocês possuem maravilhas aqui, uma pena as circunstâncias não terem sido melhores para eu conhecê-los mais profundamente. Mas não posso negar que curti a aventura, ainda mais que estou saindo vivo dela.


Enquanto falávamos não tínhamos percebido que Lachita havia se retirado. Quando terminei meu agradecimento ela retornava com um belíssimo abajur em suas mãos.


— Senhor Nestor, peço perdão pelo que meus companheiros fizeram-no passar hoje. Espero que, apesar de tudo, aceite esta peça como uma forma de sempre lembrar-se de nós. Este abajur está em minha família há vários anos, passando de geração a geração. Acho que, numa situação como esta, um choque cultural entre nós beduínos e você uma alma pálida, ele seja o melhor presente. Um pouco de nossa cultura estará sempre presente com você.


— Minha senhora Lachita. Não tenho palavras para agradecê-la. Ele é fantástico.


Despedimos-nos e eu, que não havia encontrado nenhuma peça ou artefato que me chamasse à atenção, em minha última noite no Marrocos vivi uma aventura fantástica, conheci beduínos, fui sequestrado, comi comidas típicas, fiz novos amigos e, ainda por cima, voltei com uma preciosidade para casa. E este abajur, minha querida Dita, apesar de estar exposto aqui na loja, nunca irei vender. Quando olho para ele e vejo suas luzes refletidas na parede, consigo ver o brilho da lua, vejo a poeira na areia, sinto o cheiro da fumaça do narguilé, mas, principalmente, vejo os olhos de expressão profunda da Senhora Lachita.


Dita Negri já tinha ouvido esta história várias vezes, porém, cada vez que ouvia parecia ser a primeira.


Pegou o espanador de pó e começou a limpar as peças da loja. Algumas precisavam de um cuidado especial e muita cautela na hora de serem limpas, pois, possuíam muitos anos de existência. O abajur marroquino sempre era o último artefato que Dita limpava.


Enquanto vagava pela loja limpando e encerando, encerando e limpando, ela cantarolava. Nenhuma canção em especial. Apenas sons e assovios saiam de seus lábios. Porém, inesperadamente, ela se pegou recitando o poema que declamava para Lucas quando ele ainda era um pequeno garotinho.


Quando chegou ao último verso do poema, “velejando, velejando, em seu pequeno barquinho”, Dita percebeu que os pelos de seus braços e nuca estavam todos arrepiados. Ela foi tomada por uma sensação estranha, um pressentimento de mau agouro. Será que Lucas já havia levantado e tomado o café da manhã? Será que estava bem?


— Acho melhor ligar para casa e checar se meu precioso já se aprontou para a escola. Meu coração está tão apertado, não gosto quando fico assim. – ela pensou consigo mesma enquanto andava em direção ao telefone da loja (também era uma peça garimpada pelo Senhor Nestor numa de suas viagens fantásticas. O telefone havia sido adquirido por ele numa viagem à Rússia onde, segundo conta, acabou se abrigando na periferia de Moscou, fugindo de rebeldes que protestavam contra o governo em uma passeata que terminou em tiros e sangue. Ele foi acolhido pela família Kazamarov que, após muita tensão, conversas, risadas, mentiras e fatos, deram-lhe o telefone como uma recordação da aventura vivida ali. Senhor Nestor conta que, devido às condições em que se encontrava a família, ele não aceitou o telefone como presente preferiu comprá-lo, a fim de ajudar a família com uma boa quantia em dinheiro). Dita pegou o telefone, discou o número de casa e aguardou na linha. Tocou uma vez. Duas. Três. Quatro. Alguma coisa estava errada. Lucas nunca deixava o telefone tocar mais de três vezes. Será que ele estava tomando banho ainda? Ou já havia saído para a escola? Pela quinta vez o telefone chamou e nenhuma resposta chegou aos ouvidos de Dita.


  


Sentado sozinho ali na cozinha, Lucas não pôde deixar de rir de toda a situação em que se encontrava. Afinal: ele estava enlouquecendo ou seu mundo estava virando de pernas para o ar?


O silêncio foi quebrado por seu riso seco que, da mesma maneira que surgiu se dissipou.


Não conseguia raciocinar direito. O que fazer? Ligar para sua mãe e dizer o que havia se passado? Ou se arrumar para ir à escola como se nada tivesse acontecido?


Enquanto se entregava ao turbilhão de pseudo soluções que enchiam sua mente, Lucas ouviu um ruído. Um som que chegava aos seus ouvidos por trás. Um som baixo, mas ao mesmo tempo melódico e nítido.


Virando a cabeça com calma ele tentou definir de onde vinha aquele som. Uma voz suplicante. Angustiada. Sofredora.


Levantando-se com calma, seguindo em direção à origem da melodia suplicante, Lucas encontrou-se em frente à geladeira. O som vinha dali. Mas como era possível?


— Salvador… Frio… Perigo… Ajuda…


Aquelas palavras novamente. Lucas Negri sentiu as pernas fraquejarem, os joelhos perderem a força, sentiu que iria desabar no chão. Apoiou as mãos na geladeira, a fim de recobrar o equilíbrio.


Assim que tocou na geladeira, mais precisamente na porta do freezer, a melodia se extinguiu. Mas apenas por um momento. Lucas foi tomado por uma ânsia tremenda, uma angústia que não sabia ao certo o motivo. Ele estava sentindo uma atração, mais forte que tudo que já havia presenciado em sua vida.


Sem saber o porquê, pegou-se estendendo a mão direita involuntariamente até a tranca da porta do freezer. Vagarosamente a abriu. Um vapor frio chegou até seu rosto. O som que havia desaparecido chegou a seus ouvidos tão alto que Lucas precisou cobri-los com as mãos.


— Salvador! – a voz suplicante parecia rasgá-lo por dentro.


Tentou afastar-se da geladeira, porém, neste momento, Lucas foi tragado para dentro do freezer por uma força abrupta, sugado como a poeira por um aspirador de pó. Sua visão ficou turva, um brilho intenso cegou-o por um momento. Seus ouvidos doendo com a melodia que, agora, mais pareciam gritos de horror que chegavam a seus ouvidos cada vez mais altos.


— Salvador! Frio! Perigo! Ajuda! – o som gutural ecoava em sua mente.


Entorpecido pelos sons aterrorizantes e de olhos fechados para tentar dissipar a claridade que lhe cegava os olhos, Lucas foi acometido por um frio intenso. Seu corpo inteiro começou a tremer, os pelos de sua nuca arrepiaram-se. Num ímpeto de dor e horror ele gritou com toda sua força:


— Pare com isso, por favor! – sua voz também saiu suplicante.


Silêncio.


     Buscando uma coragem que, até o momento, ele não sabia existir dentro de si, abriu os olhos vagarosamente, deixando-os acostumar-se com a claridade. Olhou ao redor procurando identificar o lugar onde estava, enquanto seu corpo, mais uma vez, era tomado por uma tremedeira desenfreada. O frio atingiu-o de uma vez, como uma flecha. Caindo de joelhos percebeu que não se encontrava mais em sua cozinha. Olhou para baixo, tateando o chão em que se encontrava, uma faísca de desespero acendeu dentro de seu peito. Com os olhos arregalados e, boquiaberto, Lucas percebeu que não havia nada a seu redor, a não ser uma imensidão branca que chegava até onde os olhos alcançavam. Ele estava na neve.

*Leia o Capítulo IV 

Nenhum comentário:

Postar um comentário