Capítulo 4 - Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares

         

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Capítulo IV - Faíscas na imensidão


— Acho que enlouqueci de vez! – a mente de Lucas estava confusa. Uma profusão de pensamentos percorria seus neurônios, mas ele não conseguia ouvi-los nitidamente.


A sucessão de eventos que aconteceram do momento em que acordou até o momento presente, em que se encontrava sem explicação e sem nenhuma razão aparente em meio a uma nevasca e em um local completamente desconhecido; faziam sua cabeça girar.


Seus olhos ainda ardiam um pouco devido ao clarão que o havia levado até ali, seus ouvidos estavam doloridos pelos sons que ouvira, mas, o pior de tudo, a sensação que estava fazendo seu corpo inteiro ficar trêmulo e entorpecido era o frio. Um frio extremo tomava conta daquele ambiente.


Durante seus doze anos de vida Lucas nunca havia visto a neve. Apenas em filmes e na televisão. Sempre via as pessoas usando várias calças, casacos, luvas e gorros, mas nunca pôde imaginar que o frio fosse tão aterrorizante e arrebatador. Suas mãos tremiam descontroladamente, bem como suas pernas. Seu queixo batia com tanta força, parecia que seu maxilar iria se partir e os dentes se quebrarem. Seus lábios já estavam começando a rachar e estavam adquirindo uma tonalidade roxa.


— Se eu imaginasse que viria para um lugar assim teria posto um capote. Mas, como eu ia saber? – pensou consigo mesmo.


Ele não havia trocado de roupa desde que acordou. Trajava sua calça de moletom cinza, que usava todas as noites para dormir. A calça já havia sido usada e lavada tantas vezes que estava bastante surrada, mas não conseguia dormir com outra coisa se não fosse com ela. A camiseta era uma de suas favoritas. Fazia tanto tempo que a tinha, na verdade há alguns anos que havia ganhado-a de sua mãe, ele cresceu alguns centímetros durante esse tempo, portanto, a camiseta já estava bem justa em seu corpo, mas ele a adorava! Não abria mão de dormir com ela todas as noites. Ela era estampada com a imagem do seu livro favorito “O Senhor dos Papéis – A Biblioteca e o Portal”. Lucas era obcecado por esse livro que, na verdade, já havia virado uma grande franquia. Tinha filmes, jogos, bichos de pelúcia, pôsteres e tudo o mais que se pode imaginar derivado de uma série literária de sucesso. Sua mãe fazia o possível para poder dar ao filho tudo referente ao universo de “O Senhor dos Papéis” e, por isso, dentre tantos outros motivos, Lucas era muito grato a sua mãe.


Apesar de sua visão estar embaçada devido às lágrimas que lhe banhavam a face, notou que, conforme as lágrimas saíam de seus olhos, esquentando-lhe as bochechas, percorrendo um caminho tortuoso até chegarem a seu queixo e pingarem no chão, assim que tocavam a neve elas produziam uma pequena fumaça e um brilho diminuto, como uma pequena faísca. Observou uma, duas, três, uma dúzia de lágrimas repetirem o mesmo processo. Desciam de seus olhos até entrarem em contato com aquele revestimento branco e frio que cobria o chão em que se encontrava, produzindo pequenas faíscas e exalando fios de fumaça.


— Minhas lágrimas estão queimando a neve? Mas como é possível? Nunca ouvi falar em nada parecido com isso. – o garoto se questionou, abismado e impressionado ao mesmo tempo.


A nova descoberta envolvendo lágrimas e neve acalmou um pouco o coração de Lucas. Porém, enquanto estava absorto em seus pensamentos e devaneios gélidos, o garoto ouviu uma voz fina e estridente que soava como se estivesse próxima, mas ele não conseguia identificar de onde, muito menos visualizar seu dono:


— O que pensa que está fazendo maldito goblin!? – gritou a voz de maneira tão estridente e aguda que fez o menino levar as mãos aos ouvidos em protesto. – Quer que os guerreiros do Tenebroso nos encontrem aqui? Pare de chorar! Agora!!!


— Quem está aí? De onde você está falando? – esbravejou Lucas que, apesar de estar em uma terra desconhecida, não iria admitir que gritassem assim com ele. — Quem você é para me dar ordens? Vou parar de chorar a hora que eu quiser, você não faz ideia do que aconteceu comigo, tenho todo direito de chorar um rio se for preciso! – tentou falar demonstrando confiança em sua voz, que, apesar de sua vontade, saiu esganiçada e soluçante.


— Por favor. Eu não quis ofender. – retrucou a voz que, apesar de muito fina, soou graciosa e amável agora.


— Se você não quer ofender então por que não aparece? Vai ficar escondido o tempo todo enquanto eu fico falando com a neve feito um louco varrido? – disse o menino enquanto enxugava as lágrimas na manga da camisa, tentando conter os soluços e soar calmo.


— Está bem, está bem. Mas você precisa prometer que irá parar de chorar, senão eles aparecerão…


— Quem? Eles quem?


— Chega. Enxugue suas lágrimas e respire fundo três vezes. Olhe para cima e conte até seis.


— Pra que tudo isso? – Lucas reclamou enquanto obedecia a voz, sem saber exatamente o por que.


— Nossa, mas como você resmunga goblinzinho! Faça logo o que eu digo ou ficará sozinho aqui com suas lágrimas e terá de arcar com as consequências quando os tenebrosos aqui chegarem.


Lucas esfregou os olhos nas mangas da camisa. Respirou fundo três vezes. Olhou para cima enquanto contava até seis e, no momento em que terminou a contagem, percebeu uma figura que não passava de um metro de altura.


— Quem… Ou melhor, o que é você?


— Me chamo Ghibli, a seu dispor senhor. – exclamou a criaturinha (seria um anão?) enquanto fazia uma reverência um tanto quanto afetada.


— Muito prazer Ghibli, eu sou Lucas Negri. – disse, segurando o riso, pois, a imagem daquela criatura fazendo uma reverência foi, no mínimo, engraçada. O garoto continuou:


— Ghibli, você saberia dizer onde estou? Como vim parar aqui? De onde surgiu toda esta neve? Eu estava em minha cozinha, depois, de repente, vim parar aqui. Não tem explicação para uma coisa dessas! – neste momento todas as lágrimas e soluços já haviam cessado.


— Bem garoto, em primeiro lugar, digo que devemos sair daqui o mais rápido possível. Aquele seu rio de lágrimas com certeza deve ter atraído alguns tenebrosos para cá e eu não quero estar aqui quando eles chegarem. Venha comigo! – tomando o menino pela mão direita, a criatura adiantou-se andando numa velocidade incrivelmente rápida tendo em vista suas pernas diminutas. Lucas tentava acompanhar os passos, tendo tropeçado algumas vezes por não estar acostumado a andar sobre a neve.


— Para onde estamos indo?


— Shh. Fique quieto. Teremos muito tempo para conversas e explicações. Mas primeiro precisamos ficar seguros. Não adiantarão de nada todas essas perguntas se formos esquartejados pelos tenebrosos.


Lucas sentiu uma pontada de terror dentro de si ao ouvir a criatura falar em esquartejamento. Mas achou conveniente permanecer em silêncio até que Ghibli dissesse que estavam seguros.


Percorreram alguns metros correndo em passos apressados. Depois dos tropeços iniciais, o menino se adaptou facilmente a neve e conseguiu acompanhar a criatura em suas velozes passadas.


Chegaram a uma árvore solitária em meio à imensidão branca. Seus galhos estavam secos, cobertos de neve. Algumas raízes saltavam para fora da neve, parecendo longos tentáculos de lulas gigantes. O tronco, grosso e escuro, contrastava com a brancura que o cercava. Lucas ficou maravilhado. Aquela imagem de uma árvore grande e escura, em meio a imensidão branca, parecia retirada de um quadro de museu.


— Chegamos. Venha comigo. – Ghibli falou, enquanto se aproximava da árvore e com sua pequena mão direita apertava o centro do tronco.


Por um momento nada aconteceu. Mas, alguns segundos depois, uma longa raiz se moveu, curvando-se para a direita, deixando a mostra uma pequena e estreita entrada que se dirigia para baixo no chão.


— Anda, anda logo. Feche a boca e venha comigo antes que seja tarde demais. – falou descendo pela estreita passagem. O menino acompanhou-o, sentindo muita dificuldade em descer naquele espaço estreito que, definitivamente, não era feito para alguém de seu tamanho passar constantemente.


A passagem, além de estreita e pequena, se encontrava em completa escuridão. Lucas seguiu em frente, apoiando as duas mãos nas paredes. Andou alguns metros em silêncio, acompanhado apenas do som de sua respiração ofegante e de seus passos. O pequeno Ghibli caminhava quase sem fazer nenhum barulho.


Alguns minutos depois, ele pôde ver uma luz distante e tremeluzente.


Aproximou-se com cuidado. Sem saber o que esperar.


— Pronto. Chegamos. Creio que, por enquanto, estamos seguros aqui. Bem vindo à minha humilde residência. – Ghibli falou abrindo os braços e sacudindo as mãos de maneira afetada. — Sente-se, por favor, enquanto eu preparo um café para esquentar nossos ânimos. – disse dirigindo-se a um pequeno cômodo que deveria ser a cozinha.


O garoto sentou-se numa pequena banqueta, parecida com aquelas de escolas do primário. Seus joelhos projetavam-se para cima, enquanto tentava encontrar uma posição confortável.


Minutos depois Ghibli retornou, trazendo consigo uma bandeja com uma vela, uma pequena garrafa de café e duas canecas.


Pôs a bandeja numa mesinha de centro em frente à banqueta em que Lucas estava. Dirigiu-se a um móvel perto da parede, onde acendeu a vela que trouxe na que já estava acesa antes de chegarem ali. Andando calmamente, sentou-se numa pequena poltrona do lado contrário ao que Lucas estava, ficando, assim, de frente para o menino. Deixou a cera da vela pingar sob a bandeja, fixada sob a cera derretida, a vela produziu uma sombra assustadora projetada nos olhos da pequena criatura. Pegou a pequena garrafa e serviu as duas xícaras até completá-las com o café, que exalava um cheiro forte, porém, muito prazeroso nas narinas de Lucas.


— Muito bem. Agora que estamos a salvo. Em que posso ajudá-lo? – perguntou Ghibli tão calmamente que nem parecia que há poucos minutos atrás estava com medo de um suposto ataque e corria loucamente pela neve prezando por sua vida.


— Ghibli, por favor. Diga-me onde estamos. Que lugar é esse? Como vim parar aqui? Quem são os tais tenebrosos que você disse que iam nos atacar? Você é um anão? – Lucas falou tudo num fôlego só, as palavras saíram como se estivessem presas há anos dentro de si.


— Calma, pequeno goblin…


— Eu não sou goblin! Muito menos sou pequeno! Pequeno aqui é você! Afinal, o que é um goblin? – o menino interrompeu a criatura, exaltando-se devido ao tom condescendente que Ghibli usou para falar.


— Mas está claro que você não é um goblin! Só estou brincando contigo criança. Você é muito alto para ser um goblin e magro demais. Goblins são criaturas arteiras, em sua grande maioria possuem a pele esverdeada, mas, de acordo com algumas lendas urbanas, também existem goblins azulados e em tons de roxo. Gostam de pregar peças e fazer pequenas maldades. Alguns generais contratam goblins para utilizá-los como infiltrados em exércitos inimigos, devido sua baixa estatura, eles facilmente entram em acampamentos, ateando fogo em barracas e soltando cavalos, a fim de desestruturar os contingentes de soldados.


O garoto ouvia tudo atentamente enquanto esvaziava a caneca de café. Os olhos arregalados; e completamente absorto nas palavras de Ghibli.


— Agora, respondendo as outras perguntas, sou Ghibli, um gnomo da neve. Há muitos séculos meu povo era rico e espalhava-se por todos os reinos, porém, após a Guerra Desregrada, os gnomos precisaram esconder-se. Os tesouros e riquezas de muitos gnomos foram saqueados, vilas subterrâneas foram extintas e muitos foram escravizados para trabalharem nas minas do Império. Por muito pouco eu também não fui capturado, mas, num golpe de sorte, consegui fugir de um ataque na vila de Treetown onde trabalhava numa ourivesaria e retornei para cá. Herdei esta casa de meus pais, não vinha para cá há muitos anos, mas, depois de todos os ataques e infortúnios que presenciei, achei melhor me recolher aqui, distante de tudo e de todos. É muito raro passar alguém por aqui, por isso me espantei quando suas lágrimas começaram a perfurar o meu teto.


— Desculpe-me. Não quis causar nenhum mal. Eu te ajudo a reparar o teto. – Lucas sentiu seu rosto enrubescer.


— Não houve danos permanentes, nada que uma boa fita fixadora não repare. Mas, como eu ia dizendo, moro aqui já há algum tempo e evito ao máximo ficar perambulando por aí como você estava fazendo. Não sei como veio parar aqui, honestamente, talvez você tenha batido a cabeça e perdido à memória?


— Não, isso não é possível. Lembro-me de tudo que aconteceu até chegar aqui, só não sei que lugar é esse e como viajei da minha cozinha para cá. Mas, afinal, que lugar é esse? – o garoto já havia bebido todo o café de sua caneca e, com as bochechas em chamas, pegou a pequena garrafa e serviu-se de mais.


— Estamos em Glácia, comumente chamado de Reino Glacial. Como você viu as principais características daqui são: a abundância da neve e frio intenso. Glácia já foi um reino rico e de muita influência no Império, porém, entrou em declínio depois que o rei Cristian enlouqueceu. Hoje o principal meio de subsistência dos habitantes se dá pela pesca de sardináceos, cujas partes são todas aproveitadas e consumidas ou vendidas. O mercado de sardináceos em Atartic, capital de Glácia, movimenta muitas moedas de ouro, apesar do reino não ter mais o prestígio dos anos anteriores, ainda há muitos nobres ricos que habitam a capital e estão cada vez mais dispostos a pagar quantias exorbitantes de moedas para adquirir os olhos dos sardináceos e fazer uso de suas propriedades mágicas.


— E quem são aqueles tenebrosos que você tanto temia enquanto estávamos lá na superfície? – o garoto estava adorando ouvir o gnomo Ghibli e já estava se sentindo em casa ouvindo os relatos. Todo o medo e terror desesperador que havia sentido horas atrás já tinham se extinguido de sua mente. Benefícios da juventude.


— Os tenebrosos são os guerreiros de infantaria de Trevor Tenebroso, manipulador do fogo e membro da Trindade Governante. Trevor é conhecido e temido em todos os reinos e submundos. Recebeu o codinome “Tenebroso” por ter derrotado, na Guerra Desregrada, um batalhão de 669 guerreiros utilizando apenas um golpe (fúria incandescente, um ataque que mistura dança com a espada, produzindo um redemoinho de fogo). Apesar de ser um grande guerreiro e ter trazido inúmeras vitórias que beneficiaram o Império, Trevor tem a fama de ser petulante e arrogante.


— Mas por que eles nos perseguiriam? Esse Trevor parece ser um grande guerreiro! E nós somos inofensivos.


— Você é um forasteiro, o que por si só seria motivo de os tenebrosos capturarem-no e eu sou um gnomo, todos os gnomos são escravizados para trabalharem na mina, devido à perícia que tem no uso do martelo e na facilidade em encontrar pedras e minerais preciosos, os que se negam a trabalhar são assassinados. Trevor é um grande guerreiro, isso é verdade, mas é muito orgulhoso. E o orgulho pode ser a decadência de um homem. Ele não aceita dividir o governo do Império com seus dois irmãos e, segundo as más línguas, todos os ataques rebeldes são frutos de sua mente perturbada. Dizem que ele quer derrubar a Trindade Governante, tornando-se, assim, o Imperador Supremo (algo que há mais de um milênio não existe).


— Então Trevor Tenebroso quer derrubar o governo ao qual ele mesmo faz parte e, no processo, destronar seus próprios irmãos? Mas isso é terrível! Por que ninguém faz nada para contê-lo? – Lucas já havia finalizado a segunda caneca de café e, apesar do frio que fazia ali, estava suando com os relatos contados por Ghibli.


— As coisas são mais difíceis do que parecessem ser meu querido. Os habitantes do Império têm muitos perigos com os quais se preocuparem, a pobreza e as desgraças são uma constante em suas vidas. Ninguém mais está seguro. Muitos já perderam as esperanças de que um dia a vida vai melhorar e a maioria tenta viver um dia atrás do outro, sem se apegar a pequenas esperanças, muito menos tentar um boicote a Trevor Tenebroso. Os tenebrosos saqueiam vilas, esquartejam gado, derrubam árvores, fazem tudo o possível para tornar a vida dos populares maldita e saem impunes porque têm a proteção de Trevor. Mas nem toda a esperança está extinta. Alguns mais fervorosos, influenciados por uma profecia antiga e por lendas contadas pelos mais velhos, acreditam que o Salvador retornará para o Império estabilizar.


— Salvador? Esta palavra ficou martelando em minha cabeça durante todo o tempo até eu chegar aqui.


— O que você está dizendo!? – Ghibli gritou levantando-se da pequena poltrona onde estava sentado. — Anda, explique-se Lucas! O que está querendo dizer com isso? Este assunto é muito sério para você brincar.


— Não estou brincando. Antes de chegar aqui eu fiquei ouvindo essa palavra, mais precisamente uma frase. Não é bem uma frase, um conjunto de palavras desconexas que não fizeram muito sentido para mim. Começou enquanto eu ouvi uns sons de baleias em meu quarto, depois um canto de sereias, mas, precisamente antes de ser transportado para cá, as palavras que eu ouvia eram: Salvador… Frio… Perigo… Ajuda…

     



     — Que Ananke tenha misericórdia de todos nós! Será que a profecia é verdadeira? Você é nosso Salvador!!?



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