Capítulo 5 - Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares

         

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Capítulo V – A Profecia

            — Senhor Nestor. Será que eu poderia ir até minha casa? Liguei diversas vezes e meu Lucas não atendeu, pensei que ele já havia saído para a escola, porém, dizem que ele não foi à escola hoje. Estou preocupada, alguma coisa aconteceu. Meu precioso não é de faltar aula, muito menos de me deixar sem notícias! – enquanto falava Dita tremia da cabeça aos pés, segurou as lágrimas e os soluços para não perder a compostura em frente a seu patrão.


            — Minha filha! É claro que você pode ir. Mas no estado em que está não a deixarei ir sozinha. Venha, vamos trancar a loja e eu a levo até sua casa. Tenho certeza que nada de mais aconteceu. Talvez o pequeno Lucas esteja com uma dor de barriga ou, quem sabe, ele esteja no caminho para a escola? Entendo a sua preocupação, mas acalme-se, juntos vamos descobrir o que houve com ele. – O Senhor Nestor falava num tom de voz firme, porém, sereno. Pegou as chaves do carro antigo e juntos partiram em direção à casa de Dita Negri.


                                                         
     
         
   Ghibli considerava já ter passado dos tempos áureos de sua juventude. Agora, beirando os trezentos anos de idade, estava satisfeito em viver sua vidinha monótona, apesar de ter que ficar escondido quase que vinte e quatro horas por dia sob a neve, num frio tremendo, era melhor viver assim a ser aprisionado e escravizado nas minas do Império ou, pior ainda, ser esquartejado e servir de alimento para as feras terríveis dos tenebrosos.
           

      Mas, quando estava sentado em sua poltrona favorita, tomando uma boa e revigorante caneca de café forte em sua pequena sala, enquanto lia um dos inúmeros manuscritos de seu pai que retratavam aventuras fantásticas de heróis lendários e, também, excertos da antiga profecia, Ghibli sentiu pequenos pingos quentes em seu ombro. Olhou para cima e notou minúsculos buracos por onde desciam os pingos de água morna. Sem saber como ou por que, Ghibli soube que sua vida monótona havia chegado ao fim.


                                                       


            — Como assim eu sou seu Salvador? Não sei de história de salvação nenhuma! Sou apenas um garoto de 12 anos, como eu poderia salvar alguém de alguma coisa? – Lucas estava com a face vermelha, talvez por ter ingerido muito café forte ou por ter sido pego completamente de surpresa pelo que Ghibli falou. Seja qual fosse o motivo, ele precisava apurar essa história direito. — Explique-se Ghibli, me conte como é essa lenda, a tal profecia, talvez ela seja a chave para eu entender como vim parar aqui e conseguir voltar para casa!


            — Meu senhor Lucas – o gnomo fez uma mesura enquanto sentava novamente na pequena poltrona, aparentando uma tranquilidade que em nada parecia com o descontrole há pouco tempo demonstrado – sei tanto quanto você. Talvez a única diferença é que conheço a profecia e já ouvi as lendas a respeito do Salvador. Veja bem – esticou os pequenos braços até a mesinha de centro, levantou a bandeja onde estava a pequena garrafa de café, expondo vários papéis e manuscritos que, até o momento, Lucas não havia percebido. — Coincidentemente eu estava lendo excertos de lendas antigas e da profecia antes da sua chegada. Não tenho nenhuma obra que traz a profecia completa, na verdade, não sei se tal obra existe. Tudo o que tenho aqui são manuscritos e fragmentos de texto que meu pai colecionava. Ele era obcecado pela história do Salvador, aquele que viria livrar a todos, independente de raça ou classe social, das garras da tirania, da pobreza e da miséria, o Salvador viria para unificar o Império.


            O garoto, que iniciou a manhã paralisado em seu quarto, sem conseguir se mover, ouvindo canto de baleias, sereias, prevendo uma tempestade, jamais poderia imaginar que, no auge de seus doze anos, estaria conversando com um gnomo e ouvindo falar de uma profecia e um possível Salvador de todas as criaturas. Sem saber o que dizer, com os olhos arregalados e a garganta seca de excitação, Lucas apenas balançou a cabeça para que o gnomo continuasse o relato.


            — Vou ler este pergaminho aqui senhor Lucas. – falou pegando um papel amarelado, parecia ser tão velho que Lucas imaginou que o papel fosse se desfazer na mão de Ghibli — Ele é datado de 1102 Antes da Guerra Desregrada e diz o seguinte:


            Firea, 1102 A.G.D.
            Para aqueles que o renegam: a morte é certa;
            Para quem finge que o espera: a morte é certa;
            Para todos os que riem e ouvem falsos profetas: a morte é certa;
            Mas para aqueles que acreditam, pregam, oram e agem em seu nome as recompensas serão a glória e a vida plena.
            O Salvador virá para eliminar toda a desgraça e injúria do mundo.
            O SALVADOR ressurgirá de um tempo distante e disforme. O FRIO não será páreo para o calor de seu poder. O PERIGO só será sentido por aqueles que o renegam e a AJUDA será para todos os povos que almejam salvação.
            O Salvador virá para unificar o Império.


            Após a leitura do pergaminho Ghibli ficou em silêncio, pensativo, observando a página e murmurando para si mesmo palavras que Lucas não conseguia distinguir claramente.


            Sem saber o que dizer, o garoto ficou remoendo as palavras dentro de sua mente, buscando ressignificar algo que nem o significado ele conhecia.


— É isso! – o gnomo gritou tão alto que, aos ouvidos de Lucas, parecia incapaz uma criatura de tão pequeno tamanho conseguir elevar a voz daquela maneira — Veja meu senhor Lucas, as palavras que estão destacadas no texto. – passando o pergaminho delicadamente paras as mãos do garoto, Ghibli parecia tão exaltado e extasiado que não ficou mais sentado, dirigiu-se ao lado de onde Lucas estava sentado, observando com olhos de lince enquanto o menino lia e analisava o pergaminho em suas mãos.


O garoto ficou em choque. Suas mãos tremiam, balançando levemente o pergaminho que nelas se encontrava. Com os olhos mais arregalados, a boca mais seca que antes, virou-se para o gnomo e disse:


— Ma-Mas essas são as palavras que eu escutei em minha casa, antes de vir para cá! Como isso é possível!? Não faz sentido!


— Pois, para mim, faz todo o sentido meu senhor Lucas – o garoto percebeu que, após a suposição de que ele era o tal Salvador, o gnomo havia mudado a maneira de tratá-lo, colocando agora sempre o “senhor” antes de pronunciar seu nome. Ghibli continuou:


— A profecia nunca disse de onde nem quando o Salvador retornaria. Você chegou aqui hoje, justamente quando eu estava lendo excertos da profecia e textos com lendas antigas. Sem saber como nem por que você veio parar aqui, em meio à neve de Glácia, vindo de um lugar que, pelo que me falou, não existe em nosso Império. E mais, as palavras que você disse ouvir enquanto era transportado para cá são justamente as palavras grifadas na parte da profecia que eu estava lendo. Quer mais sentido que isso? Podemos procurar!


O menino estava estupefato.

O que dizer diante daquilo?

Notando a mudez temporária de seu companheiro, o gnomo Ghibli aproveitou para continuar seu discurso:


— Seria muita coincidência meu senhor Lucas as palavras em sua cabeça serem as mesmas da profecia. Talvez aquelas vozes que você diz ter ouvido sejam de alguém o convocando para vir aqui e salvar o povo. Mas eu nunca ouvi dizer em nada parecido. Não sabia que dava para convocar o Salvador. Se isso é possível, por que ninguém havia o feito antes? – o gnomo fez um instante de silêncio, balbuciando algumas palavras enquanto acenava com a cabeça para si mesmo. — São muitas perguntas para poucas respostas. Mas acho que sei como podemos sanar nossas dúvidas, mas precisamos tomar muito cuidado, os tenebrosos estão espalhados por todo o Império e eu não quero terminar meus dias escravizado numa mina.


— O que nós podemos fazer Ghibli? Não entendo nada de salvação, muito menos de livrar pessoas de pobreza e desgraças. Ainda estou de pijamas, como posso sair assim para salvar alguém quando não consigo nem salvar a mim mesmo?


— Meu senhor Lucas, fique calmo, Ananke há de nos abençoar. Primeiro, precisamos arrumar um agasalho para você, é impróprio que saia assim numa temperatura tão fria quanto a em que estamos, o que você estava pensando para se apresentar assim? – havia um tom de advertência na voz do gnomo.


— Ghibli, eu não sabia que viria para a neve, estava em casa e tinha acabado de acordar…


— Não temos tempo para desculpas esfarrapadas meu senhor! – bradou o gnomo interrompendo o garoto no meio de sua frase. – Vou pegar um casaco para ti. Mas sinto que minhas botas não caberão nesses seus enormes pés, tudo bem, você terá de se contentar com alguns pares de meia sobrepostos uns aos outros para aliviarem o gelo da neve e os possíveis machucados de caminhada.


— Machucados de caminhadas? Para onde você planeja me levar?


— Se há algum lugar em todo o Império em que podemos conseguir respostas para nossas indagações, esse lugar é a Biblioteca Imperial. Mas o caminho para lá é longo e tortuoso. Precisamos ser precavidos para evitar os tenebrosos e, também, os fora da lei.


O sangue do menino gelou. E pensar que numa hora dessa ele deveria estar na escola, na aula de Literatura da Dona Cláudia.


— Tem certeza de que é uma boa ideia Ghibli? Não conheço ninguém por aqui.


— Não sei se é uma boa ideia ou não meu senhor. Mas é a única coisa que podemos fazer no momento. O fato de você não conhecer ninguém é algo que usaremos a nosso favor, vamos manter sua identidade apenas entre nós dois por enquanto. Da mesma maneira que tem muitos fiéis que aguardam o retorno do Salvador, existem aqueles que profanam seu nome, devoradores de felicidade, adoradores de Érebo. Devemos evitar essas criaturas. Se souberem de sua existência nossos dias chegarão ao fim. Não quero nem imaginar o que aconteceria se os adoradores de Érebo soubessem que o Salvador retornou, creio que o crucificariam…


O suposto Salvador estremeceu do topo da cabeça até as pontas dos pés. Por sorte estava sentado, senão teria caído, porque seus joelhos fraquejaram no momento em que ouviu falar de crucificação. Pálido feito uma vela, dirigiu-se ao gnomo:


— Companheiro – a voz trêmula, falhando um pouco. Pigarreou, limpando a garganta. – Como faremos para chegar até à Biblioteca Imperial? Se há tantos perigos assim na estrada não seria melhor permanecermos escondidos? Quero dizer, não sei se consigo enfrentar tantos males assim…


— Mas é claro que o senhor consegue meu grande Salvador Lucas! – o gnomo levantou os braços, enquanto fazia mais uma de suas reverências afetadas. — Porém, antes de irmos à Biblioteca precisamos fazer uma visita a um velho amigo. Creio que ele poderá nos guiar e auxiliar nessa empreitada em busca da salvação.


— Quem é esse amigo? Ele pode me dizer como salvar o povo? Será que ele sabe o caminho de volta para minha casa? Vai me ajudar a derrotar os inimigos? Ele é poderoso?


— Ele se chama Crânius, o sábio. Possui uma das mentes mais brilhantes de todo o Império. Há muitos anos fez parte da Trindade Governante.


— Fantástico! Então ele tem conexões. Vai poder nos ajudar. Mas, por que ele não faz mais parte da Trindade Governante?


— Crânius foi deposto do cargo. Na verdade foi expulso.


— Mas quem o expulsaria, se ele possui tanta sabedoria quanto você diz?


— Num golpe de estado, tomando o palácio da Trindade, quem depôs Crânius e seus companheiros Andreas e Tênius foi Trevor, Tenebroso.


— Nós também encontraremos esse Andreas e Tênius?


— Não meu senhor. Apenas Crânius, o sábio.


— Mas não seria melhor se encontrássemos os três antigos membros da Trindade Governante? Assim teríamos muito mais apoio em nossa caminhada e, quem sabe, o sucesso estaria mais próximo, eu poderia fazer o que se espera de um Salvador e, em seguida, eles me ajudariam a retornar para casa.


      — Nós não podemos encontrá-los, meu senhor, porque estão mortos. Foram esquartejados por Trevor, Tenebroso.

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