Capítulo 6 - Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares



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Capítulo VI – A Estrada Tortuosa

Com as mãos trêmulas abriu a porta do carro e desceu às pressas, mal esperando o motorista estacionar completamente. Absorta numa tsunami de preocupações e ideias desconcertantes sobre o que poderia ter acontecido com seu filho, Dita Negri não quis saber de manter a pose em frente ao patrão. Dirigiu-se rapidamente à porta de entrada de sua casa, tentando encaixar a chave na maçaneta, mas, devido ao nervosismo, o molho de chaves caiu no chão. O estalido metálico ressoou em seus ouvidos e foram como um disparador para as lágrimas que tentou conter até o momento. Num rompante os soluços tomaram conta de si. Suas forças esvaíram-se e a visão ficou turva. Senhor Nestor, que já havia estacionado o carro, adiantou-se apoiando sua funcionária nos braços.


— Minha filha, respire fundo. Tudo há de se esclarecer.


Ela abriu a boca, mas não emitiu nenhum som em resposta.


As lágrimas inundavam-lhe a face, tornando-a quente e úmida.


Pegando as chaves no chão, Nestor abriu a porta. A esperança fez-se viver novamente em Dita que, retomando o controle de seu corpo, utilizou as mãos trêmulas para enxugar os olhos.


Caminhando tensa e apressadamente, entrou em casa.


— Lucas? Meu filho, onde você está? Lucas! Responda! – gritou com todas as forças possíveis, apesar de seus pulmões estarem fracos devido aos soluços da onda de choro desesperador que a acometeu.


A falta de resposta e o silêncio aterrador que se fazia presente em sua casa deixaram-na desconcertada. Por onde começar?


Subiu as escadas pulando de dois em dois degraus. A porta do quarto de seu filho estava aberta. Avançando decididamente adentrou e encontrou a cama vazia, apenas com lençóis e travesseiros ocupando-a.


Saiu em disparada, indo em direção ao banheiro.


Nada ali.


Desceu as escadas encontrando-se novamente no andar inferior. Foi até a cozinha onde havia deixado o café da manhã pronto para seu precioso. O que aconteceu? Será que ele comeu ou saiu de jejum? Por que não ligou para avisar?


Na mesa estava disposto o copo sujo onde antes havia suco de laranja, o prato com o guardanapo do misto quente, a tigela com um restinho de leite e cereais e a xícara de café. Senhor Nestor, sobre o umbral da porta, observava todos os seus movimentos com olhos atentos, mas de boca fechada. Achou melhor permanecer assim.


Tocando a xícara de café com sua mão direita Dita teve um sobressalto. Ela ainda estava quente, o que indicava que Lucas havia tomado café há pouco tempo atrás.


— Dita minha filha! Olhe, a porta do freezer está aberta! – exclamou seu patrão, cortando o silêncio tenebroso que até o momento tomava conta do ambiente.


Virando-se abruptamente em direção à geladeira ela viu o vapor gelado que saía de dentro do freezer, a porta aberta e a sensação de desespero e impotência mais uma vez tomando conta de si.


— E se alguém pegou meu filho? E se alguém o levou? Eu não suportarei isso. Não, de novo não…


Sussurrou meio que para si mesma, meio que para o Senhor Nestor que, num gesto afetuoso, envolveu-a num abraço, enquanto as lágrimas mornas escorriam por seu rosto, encharcando o casaco de seu patrão.


         


— Qual a distância até a casa de Crânius? – indagou Lucas que, apesar do frio cortante, tinha algumas gotas de suor escorrendo em sua testa.


O gnomo olhou-o com um olhar fulminante, porém, respondeu:


— Meu senhor Salvador. A paciência é uma virtude. Sei que o caminho é longo e o percurso não é dos mais agradáveis. Mas, como diz o velho ditado: “se é amargo no começo…” – Ghibli falou num tom de voz tão sábio e solene que Lucas achou melhor não contrariá-lo, apesar de não ter entendido o tal ditado.


Já haviam caminhado por algumas horas pela Estrada Tortuosa, sem ter feito nenhuma pausa. O garoto não sabia ao certo quantos metros ou quilômetros haviam percorrido, mas, o cansaço já estava corroendo suas entranhas. Estava descalço, utilizando apenas os cinco pares de meia sobrepostos uns aos outros que o gnomo havia lhe emprestado. Sua calça de moletom não conseguia proteger-lhe muito bem do vento frio que parecia cortar-lhe as pernas. A camiseta com estampa do “Senhor dos Papéis – A Biblioteca e o Portal” estava escondida sob dois casacos que, apesar de serem bem revestidos e esquentar-lhe o tronco, possuíam mangas mais curtas que seus braços, deixando uma parte do antebraço desprotegida do frio. O pescoço estava envolto num pequeno cachecol preto de bolinhas brancas. Pelo fato de as peças de roupa serem de um gnomo e terem o tamanho um pouco menor do que o adequado para um garoto de doze anos e, também, o fato de Lucas ser um pouco mais alto que as outras crianças de sua idade, ele estava um pouco incomodado e dolorido. As meias apertavam-lhe os pés, os casacos retiravam um pouco a sua capacidade de movimentos e o cachecol pinicava-lhe o pescoço. Ele caminhava parecendo um robô velho e enferrujado caminhando na neve.


A Estrada Tortuosa era larga e extensa. A parte principal onde circulava o maior fluxo de pessoas, cavalos, carroças e derivados, tinha menos neve cobrindo-a. A circulação constante de pessoas não permitia que a neve cobrisse uma grande extensão do percurso, porém, como eles queriam se manter às escondidas, raramente andavam pela parte principal da estrada, evitando chamar atenção e o contato com desconhecidos, Ghibli preferia que eles andassem a margem da estrada, o que significava ter que enfrentar uma cobertura maior da neve no chão, o que deixava Lucas consternado.
Com a respiração ofegante e os pés suplicando por um descanso, Lucas quase chorou de alegria quando o gnomo Ghibli declarou que fariam uma pausa.


Ele escolheu uma parte com pouca neve. Explicou que, conforme se aproximassem mais das aldeias maiores, a neve diminuiria, pois, os grandes nobres odiavam ficar encalhados na neve e tinham servos contratados especificamente para limpar as estradas e campos.


O lugar escolhido para descansarem era um campo coberto por uma camada fina de neve, sob uma grande árvore que era cercada por algumas árvores menores. Eles ficaram do lado direito da árvore, fora do campo de visão de quem passasse na estrada, porém, atentos a qualquer perigo iminente. O local era próximo à entrada da Vila Gedala que, segundo Ghibli, era uma das principais fornecedoras de alimentos em toda Glácia. Lucas não conseguia perceber, vendo toda aquela imensidão branca de neve e frio, quais os tipos de alimento que poderiam sair daquela pequena vila, mas preferiu ficar em silêncio, tendo em vista que seu companheiro gnomo não estava se mostrando muito aberto ao diálogo nesse momento. Na verdade, o gnomo Ghibli parecia estar nervoso, com um semblante pesado, apesar de não ter mudado a maneira de tratar o pseudo Salvador, utilizando os “senhores” e fazendo suas reverências afetadas toda vez que precisava se dirigir a ele, Lucas percebeu que o tom de voz do gnomo havia se tornado mais seco.


Descarregaram a bagagem.


Lucas carregava uma mochila rústica feita de couro que o gnomo preparou com alguns objetos, utensílios e prendas para comerem. Em sua mochila havia uma pequena frigideira, duas colheres de madeira de tamanho médio, uma moringa com água, alguns pedaços de pão grosso e duro e sementes diversas que, segundo o gnomo, seriam usadas para tempero e, em caso de extrema necessidade, para mastigar e saciar a fome. Também havia uma manta feita de um material não muito grosso, mas consistente e capaz de amenizar o vento cortante e opressor da noite de Glácia.


A bolsa que Ghibli carregava continha uma panela um pouco mais funda, para cozinhar sopas e guisados, uma espécie de espátula de madeira que, conforme explicou a Lucas, teria inúmeras utilidades, desde auxiliar no preparo das refeições, como também para remover camadas de neve dos locais onde eles fossem acampar; carregava algumas frutas secas e raízes de ervas medicinais para casos de emergência. Ele também havia posto na bolsa alguns pergaminhos contendo excertos da lenda, enrolados com muito cuidado para não serem danificados durante a viagem. Carregava duas canecas para tomarem sopa e água. Não havia levado uma manta para si, como já estava acostumado com o tempo frio e com a neve, Ghibli utilizava uma grossa capa em suas costas e, quando acampava, usava-a como cobertor. Ele não havia contado ao garoto, mas carregava embainhado a seu cinto, sob a capa e a camisa, um punhal de porte médio, não esperava encontrar muitos contratempos e obstáculos até o esconderijo de Crânius, mas, era melhor se precaver, porque a estrada está cheia de delinquentes e foras da lei.


Ghibli não era um guerreiro, muito menos possuía destreza em enfrentar possíveis inimigos, mas, estava com o possível Salvador do Império e não admitiria que ninguém ou coisa alguma ficasse em seu caminho. Protegeria o garoto Lucas com a sua vida se fosse preciso e utilizaria todas as suas forças para conseguir fazer o Salvador encontrar seu destino e cumprir a profecia. Mas primeiro eles precisavam descansar um pouco e recuperar as energias para seguir seu caminho. Preparou uma sopa rala com algumas das sementes que estavam na bolsa de Lucas, economizando para não acabar com o estoque logo na primeira parada. Partiu dois pequenos pedaços do pão duro para poderem molhar na sopa e repousaram por alguns minutos.


Retirando as meias dos pés, o garoto ficou horrorizado com o que viu. A sola de seus pés já estava com bolhas, se continuassem no ritmo em que estavam com certeza elas estourariam.


— Ghibli! Vamos descansar mais um pouco, eu te imploro. Meus pés já estão com bolhas, daqui a pouco não conseguirei mais seguir em frente. Andamos por horas, caminhando encima da neve ao invés de andarmos na estrada realmente, e já estamos voltando para seguir em frente. Por que não podemos repousar só mais um pouquinho?


O gnomo, que já estava recolocando os utensílios de volta nas bolsas, levantou a capa do chão, sacudindo-a para retirar a neve, pregou-a sobre seus ombros. Olhou para o garoto de maneira reprovadora.


— Meu senhor Salvador Lucas – fez uma pequena mesura com a cabeça – não podemos perder tempo. Demos sorte de não ter encontrado nenhum tenebroso em nosso caminho. Mas não podemos correr o risco. Precisamos seguir em frente, a Vila Gedala está a poucos metros de distância, lá conseguiremos um par de botas para o senhor e, assim, a caminhada se tornará menos exaustiva. – o gnomo falava de maneira afetuosa, porém o tom de voz que usou era rígido e autoritário, definitivamente não aguentaria mais reclamações do menino, que preferiu ficar em silêncio e colocar as meias de volta nos pés e preparar-se para o retorno da caminhada.


Num silêncio opressor, acompanhados do vento frio que parecia decepar-lhe as pernas, Lucas queria ouvir mais histórias daquele lugar, saber sobre a profecia, sobre o Império, sobre o sábio Crânius que iria ajudá-los, mas seu companheiro parecia estar perdido em seus próprios pensamentos.


O gnomo Ghibli andava determinado e quieto, dando passos firmes e demonstrando uma familiaridade absurda com o terreno que percorria, tornando dificultoso para que o garoto pudesse acompanhar. Sua mente parecia ter sido inundada por uma profusão de pensamentos. Levava uma vida pacata, beirando a monotonia extrema e agora estava ali com o possível Salvador do Império! Precisava encontrar Crânius o mais rápido possível, ele saberá o que fazer e como proceder com o preparo de Lucas.


— Os excertos que tenho da profecia não são muito profundos e não especificam como o Salvador agirá para salvar o Império e retirar a opressão de todo o povo. Como esse garoto vai poder salvar alguém se ele nem sabe como veio parar aqui? – pensava Ghibli consigo mesmo – Precisamos seguir a Estrada Tortuosa evitando ao máximo o contato com quem quer que seja. Pararei apenas para arranjar um par de botas para ele e seguiremos em frente. Quanto mais rápido chegarmos até Crânius, mais rápido conseguiremos respostas e esclarecimentos. Espero que dê tudo certo.


Um som alto chegou a seus ouvidos. Lucas levantou a cabeça, contemplando o céu escuro e estrelado, viu plainando uma ave branca como a neve, com três longas penas presas em seu pequeno rabo. Acompanhando o voo da ave, Lucas a viu pousar sobre algo cinzento. Baixando o olhar ele vislumbrou o que era: duas pequenas torres de pedra cinzenta, fincadas ao chão paralelas uma à outra, indicavam a entrada de Vida Gedala. Ao lado de cada torre estendiam-se muros feitos de pedra e algo que parecia cimento bruto. Em algumas partes dos muros havia reentrâncias de madeira, onde Lucas conseguiu observar algo brilhando a luz da lua. Eram observadores, vigiando a entrada da Vila.


No meio das torres havia uma espécie de portão de madeira. Parecia ser bem grosso e pesado e não havia maneira aparente de abri-lo por fora.


— Fique quieto, abaixe e cabeça e faça tudo o que eu disser. Não temos tempo de contornar os muros de Vila Gedala e precisamos lhe arranjar um par de botas. Ninguém pode saber sua identidade, se alguém se dirigir a você finja que é mudo e eu direi que você é meu servo. Precisamos passar despercebidos. É bem provável que haja tenebrosos por aqui.


O garoto empalideceu. Até agora estava achando tudo muito tranquilo, apesar do cansaço em suas pernas e pés, a ideia de que havia algum perigo realmente iminente na Estrada parecia estar a milhas de distância. Porém, de pé ali, em frente a entrada de Vila Gedala, Lucas percebeu que tudo era realmente real. Não sabia o que esperar dali pra frente, o que poderia acontecer ou como sair dessa situação. Resolveu obedecer piamente aos comandos do gnomo. Baixando a cabeça e olhando para os pés, chegou mais perto de Ghibli, quase lhe tocando a mão direita.


Respirando fundo e levantando o rosto para a grande estrutura de madeira que se agigantava à sua frente, Ghibli, o gnomo, bateu com toda a força possível no portão, fazendo ecoar um som aterrorizante.


Com um ruído estrondoso o portão se abriu.


Duas criaturas apareceram. Com longas espadas nas mãos e olhares penetrantes que pareciam enxergar até a alma dos visitantes, entreolharam-se e disseram, quase que em uníssono:


— O que vocês querem aqui? – as vozes grossas pareceram cortar Lucas que controlou todos os impulsos de levantar a cabeça e ver quem eram aquelas criaturas. Permaneceu de cabeça baixa, olhando para o chão. Vislumbrou a mão direita do gnomo, ela tremia.


A garganta de Ghibli ficou seca. Seu rosto empalideceu. Suas mãos começaram a tremer. Tentou não demonstrar o nervosismo que sentia. Se fossem descobertos seria o fim da jornada. Todas as chances de levar o Salvador até Crânius iriam por água a baixo.


Ali, diante de si, estavam duas das criaturas que ele nunca gostaria de encontrar face a face, aqueles de quem fugiu tantos anos atrás e para quem perdeu seus pais.


     Estava frente a frente a dois tenebrosos.

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