Capítulo 7 - Tempestade Interior § As Crônicas Irregulares

Mergulhando em águas turvas


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Capítulo VII - O par de botas

Muitas lágrimas e alguns minutos depois, Dita Negri estava sentada na mesa onde, supostamente, seu filho havia tomado café da manhã. Seu patrão, sempre atencioso e generoso, Senhor Nestor, terminava de coar o café.


Pondo a garrafa em frente a ela, o patrão serviu-a de uma xícara bem cheia de um café forte e consistente.


Serviu-se também e, sentando ao lado de sua funcionária, disse:


— Minha filha, sei que este é um momento difícil. Não consigo imaginar como está sua cabeça nesse momento, mas, preciso te perguntar uma coisa…


Baixando a xícara que estava em suas mãos, Dita olhou no fundo dos olhos de Nestor, sentiu-se acanhada e um pouco envergonhada. Tinha perdido a razão em frente a seu patrão, mas sabia que ele compreenderia aquela situação, afinal, Senhor Nestor já havia passado por tanta coisa em sua vida e vivenciado experiências fantásticas, não a julgaria por uma crise de choro e desespero justificada.


— Pode falar Senhor Nestor. – sua voz ainda estava meio falhada por conta dos soluços e do choro, agora um pouco mais contidos.


Depois do choque inicial e da possibilidade de ter perdido seu filho, ela estava tentando decidir como proceder dali pra frente. Nestor queria ligar para a polícia, mas ela descartou esta possibilidade, afinal, a polícia só considerava um desaparecimento após 24 horas. Com a ajuda do Senhor Nestor ligou para todos os amigos de Lucas e também de novo para a escola, mas nenhum dos amigos tinha sido contatado por seu filho e ele não apareceu na escola. Dita, apesar de todo o desespero que a corroia por dentro, tentava colocar a cabeça em ordem e organizar os pensamentos, a fim de encontrar uma solução plausível para ter seu filho de volta. Mas, para isso, primeiro precisava saber para onde ele tinha ido. Ou sido levado.


— Há pouco, você sussurrou uma coisa que me deixou confuso… Você disse que não poderia suportar ter seu filho levado de você de novo. O que quis dizer?


A mulher arregalou os olhos assustada. Depois baixou o olhar, encarando a fumaça que subia em espiral de sua xícara. Precisou fazer um esforço tremendo para poder encarar seu patrão, com os olhos marejados e a voz soando fraca e melancólica falou:


— Quando meu filho era menor eu o perdi na praia…


— Meu Deus! Sinto muito. Não queria fazê-la sofrer.


— Tudo bem. Ele não ficou desaparecido mais que uma hora, mas para mim pareceu uma eternidade. A sensação de que nunca mais iria ver meu bebê foi a pior que já senti em toda minha vida.


— O que importa é que você o encontrou daquela vez e também o encontrará agora. Eu tenho fé minha filha!


— Você não entende Senhor Nestor. Quando Lucas voltou, aquela vez na praia, ele não era mais o mesmo. Apesar de ter passado pouco mais de uma hora longe de mim, ele contou coisas absurdas, mas incrivelmente detalhadas de um lugar estranho e pessoas que havia conhecido. Como se houvesse ficado desaparecido por dias e dias. Inicialmente pensei que era algum devaneio infantil, porém, ele afirmou ter conhecido o pai. Isso é impossível, porque o pai dele morreu quando eu ainda estava grávida. – ela parou. O olhar vazio, rememorando o sofrimento que passou enquanto seu filho havia sumido — Mas, depois de um tempo, Lucas pareceu simplesmente esquecer aquelas histórias daquele dia na praia. Não falava mais de lugar algum, nem de pessoas que havia conhecido, muito menos de seu pai. Na verdade, nunca mais tocamos neste assunto. Ele tinha quatro anos na época. Talvez, com o tempo, as memórias se apagaram de sua mente e aquele dia estranho tenha ficado para trás. Mas nunca me esquecerei do que senti; todos os dias eu fico com a sensação de que vou perder meu filho, e isso é sufocante. Por isso somos tão ligados, acho que aquele dia serviu para criar um vínculo ainda mais forte entre nós dois.
O Senhor Nestor ouvia tudo atentamente, absorvendo todas as palavras e balançando a cabeça, como se concordasse com tudo que ela falava.


— Mas, minha filha, baseado em tudo o que me falou não consigo imaginar quem possa ter levado seu filho, já que o pai dele está morto. Será que isso tudo não passa de um mal entendido e o pobre garoto esteja em algum lugar descansando e se divertindo? Na biblioteca talvez?


— Não. Sinto dentro de mim. Algo está muito errado. Estou com a mesma sensação daquele dia na praia. Meu instinto me diz que meu filho está longe e corre perigo. Preciso fazer alguma coisa! – bateu na mesa com a mão direita, fazendo as xícaras tremerem e a garrafa de café balançar. Dita pronunciou a última frase tão alto que sua voz soou como um grito. O som desesperador emitido por uma mãe que perdeu o filho. Um eco de terror que perfurou a alma do Senhor Nestor.




— Ande seu anão imundo! Responda logo ou prepare-se para morrer. O que vocês querem aqui? – gritou um dos tenebrosos que abriram o portão. O outro apontava a espada para a cara de Ghibli.


— Por favor, senhor. Somos apenas mercadores, viemos aqui para vender e comprar mercadorias. – o gnomo tentou utilizar um som de voz respeitoso e amigável, mas tudo o que conseguiu foi que sua voz soasse melancólica e suplicante.


O garoto tremia cada vez mais. O medo de morrer ali, em um lugar desconhecido com um amigo recém-feito, era aterrorizante. Tentando manter-se firme, apesar dos joelhos trêmulos, levou sua mão esquerda até a mão direita de Ghibli e apertou-a com toda a força. A mão do gnomo também estava tremendo.


— Vocês estão pensando que somos estúpidos? Que mercadorias irão vender se tudo o que carregam são essas bolsas velhas? E, a meu ver, elas não devem conter nada que valha a pena ser vendido, olhe só para vocês, parecem dois mendigos suplicantes. A Vila Gedala já está cheia de pedintes, não precisamos de mais dois para infestar a rua com suas pragas e piolhos! – agora foi a vez do tenebroso que apontava a espada falar. Ele parecia ser mais perigoso que o outro, mas Ghibli não queria descobrir realmente, até porque, qualquer um dos dois poderia matá-los numa fração de segundos.


Lucas apertou a mão do gnomo ainda mais forte. Pronto. Era agora. Os dois morreriam empalados por aquelas espadas. Ou pior: seriam esquartejados e lançados na neve. Foi com muita luta interior que ele conseguiu segurar as lágrimas e o desejo de virar as costas e correr para bem longe. Ghibli respondeu a seu aperto de mão, para em seguida soltar a sua mão da dele.


— Perdoem-me nobres senhores! Creio que não me fiz compreender. Desculpem, mas não sou muito eloquente com as palavras. Deve ser culpa dos meus pais que preferiram me ensinar a viver ao invés de me darem estudo…


— Vá direto ao assunto seu imundo! Minha paciência está se esgotando – interrompeu-o um dos tenebrosos. Agora os dois estavam com as espadas apontadas, um para a face de Ghibli e outro para a de Lucas, que permanecia com a cabeça baixa, quase beijando os pés.


— Como eu ia dizendo, sou mercador e vim até aqui tentar vender esse infeliz – pegou Lucas pela mão, levantando seu braço esquerdo para o alto – veja só como está magro! Mais parece um goblin. Não me atende mais. Seus serviços tornaram-se podres e falhos, confesso que demorei tempo demais até tomar a decisão de vendê-lo, ele foi um presente de meu pai e minha mãe para mim, mas, há muito tempo deixou de trabalhar direito. Fica só procrastinando pelos cantos da minha casa enquanto a neve se acumula no quintal e a poeira encima dos móveis. Portanto, decidi vir até aqui vendê-lo para algum mercador ou dono de bar que possa encontrar alguma serventia para esse infeliz.


Lucas não podia acreditar! Levantou a cabeça e olhou para Ghibli que, com um olhar severo, deu-lhe um tapa no lado esquerdo da face. Sem conseguir manter o controle o garoto deixou que as lágrimas encharcassem seu rosto, enquanto era segurado pelo gnomo que havia levantado seu braço esquerdo.


Os tenebrosos olharam de Ghibli para Lucas. O desprezo estampado em seus rostos.


— Será bem difícil você conseguir encontrar alguém disposto a comprar uma criatura tão magra e raquítica quanto essa que você afirma ser seu servo. Mas, quem somos nós para barrarmos um comerciante em busca de sustento para sobreviver à crise. Agora entrem logo e saiam de nossa frente. De desgraças o Império está cheio e não precisamos de mais duas nos assombrando numa noite fria e estrelada. Sumam!


Os tenebrosos pegaram Ghibli e Lucas pelos braços e empurraram-nos para dentro de Vila Gedala. Seguindo seu caminho sem olhar para trás, os dois foram adiante, sem saber ao certo onde deviam ir. Mas, o que importava realmente era manter-se afastado de perigos.


Conforme caminhavam ouviram o som do grande portão sendo fechado à suas costas.


Após alguns passos, certificando-se de que não estavam sendo seguidos, o gnomo Ghibli pegou as mãos de Lucas, ajoelhou-se e disse:


— Meu senhor! Perdoe-me! Tenha misericórdia de minh’alma! Só Vênus sabe o quanto sofri realizando ato tão descomunal. Mas foi preciso, eu precisava convencê-los de que era um mercador. Perdoe-me! Que Érebo carregue-me para os confins de seu reino de sofrimento se eu precisar fazer algo assim novamente em minha vida! Não me perdoarei nunca meu Salvador! Misericórdia de mim! Tenha misericórdia! – a voz do gnomo soava agonizante, como se ele estivesse sendo dilacerado e esquartejado. O sofrimento presente em suas palavras era quase palpável. O garoto, que tinha mantido a cabeça abaixada até esse momento, levantou os olhos, dirigindo seu olhar para aquela pobre criatura que estava ajoelhada a seus pés.


— Entendo o que você fez – sua voz saiu mais rude do que planejava – mas preciso de um tempo para me acostumar com tudo isso que está acontecendo. Nunca ninguém me bateu antes e eu te conheço há pouquíssimo tempo para você ter feito uma coisa dessas comigo. Não sei se posso perdoá-lo. Não agora, neste momento – fez uma pausa, respirou fundo. O desgosto estampado no rosto do gnomo a seus pés era comovente. — vamos seguir em frente, precisamos arranjar logo um par de botas para mim e procurarmos algum lugar para passarmos a noite sem sermos atormentados. Amanhã cedo devemos seguir nosso caminho em busca de Crânius, o sábio. Levante-se do chão e mostre-me a direção.


Apesar da dor e vergonha que sentia em si mesmo, Ghibli sentiu um orgulho arrebatador. O garoto que estava a sua frente havia mudado. Algo aconteceu. A pequena experiência assombrosa que tiveram no portão de Vila Gedala serviu como disparador de alguma coisa dentro do Salvador. Ele soou como um soberano quando estava chamando sua atenção. Aparentou a maturidade de um líder e o discernimento de um sábio.


O gnomo levantou-se e sorriu.


As ruas da Vila pareciam desertas, mas, quanto mais adentravam em seu interior, mais movimentadas se tornavam.


O ar gélido e o vento forte traziam até as narinas de Lucas odores dos mais diversos. O chão estava escorregadio, devido à neve. Em algumas partes dava para ver os grandes blocos que formavam a estrada, levemente molhados pela neve retirada pelos servos encarregados da limpeza.


Nas calçadas ao redor das ruas a neve possuía colorações estranhas, muito lixo se acumulava nos cantos, próximos às paredes. O garoto sentiu um cheiro forte e desagradável perto da parede de uma construção que parecia ser uma estalagem. Ghibli logo identificou o odor como sendo urina, provavelmente expelida por algum beberrão que não conseguiu se segurar até chegar a um local mais apropriado para se aliviar.


Começaram a notar algumas pessoas perambulando pelas ruas. Apesar de a noite estar fria e o vento cortante ser intenso, os cidadãos pareciam não se importar.


De dentro das construções luzes projetavam-se pelas janelas e o som de risadas chegava aos ouvidos dos viajantes.


— Para onde estamos indo? – indagou o garoto, sentindo o cansaço em seus pés e o estômago dizendo que já estava na hora de ser atendido.


— Calma meu senhor. Precisamos chegar até o fim desta rua. A esta hora o mercado já está fechado, mas na periferia da Vila encontraremos abrigo seguro para passarmos a noite. Assim poderemos descansar e comer alguma coisa para nos manter até o dia de amanhã. Logo pela manhã encontraremos para ti um par de botas e sairemos daqui o mais rápido possível. Conseguimos nos livrar daqueles dois tenebrosos, mas um raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, tenho certeza de que se encontrarmos mais algum tipo daqueles, não conseguiremos sair com vida tão facilmente. – a voz do gnomo soava tenebrosa e já demonstrava o cansaço da longa caminhada percorrida durante o dia.


Após mais alguns metros caminhados em silêncio absoluto, chegaram até um local no extremo norte da cidade. Algumas tendas provisórias ocupavam o espaço. Lonas e cortinas sobrepunham-se umas as outras. Algumas redes podiam ser vistas por debaixo das lonas. Em alguns espaços havia pedaços de madeira sobre o chão, cobrindo os blocos e a neve. Lucas conseguia ouvir vários barulhos de roncos e choros de bebês.


— Vamos procurar um lugar mais afastado das tendas. Creio que no fundo estaremos seguros, sem corrermos o risco de que alguém nos aviste ou nos incomode. – o gnomo afirmou, caminhando lentamente entre as tendas, tentando emitir o mínimo de barulho possível.


Percorreram o labirinto de redes como se fossem gatos. Os únicos sons que emitiram foram de quando pisavam em tábuas que estavam em falso ou quando, sem querer, batiam em algum dos corpos na rede e o dono resmungava, mas sem necessariamente acordar.


Chegaram ao extremo norte da periferia. O local era muito escuro e mal se podia enxergar um palmo à frente de si. Lucas observou pequenas luzes que acendiam e apagavam no canto direito de seu campo de visão. De onde vinham essas luzes saíam também pequenos feixes de fumaça. Ele preferiu não perguntar a Ghibli sobre o que se tratava aquilo, mas teve a impressão de ouvir gemidos de dor e pensou que aquelas pessoas que se encontravam escondidas sob as sombras deviam estar fumando. Soltou um leve suspiro de tranquilidade quando notou que o gnomo não se dirigia até o local de onde vinha a fumaça.


Seguiram para o lado esquerdo; entre duas enormes paredes estavam algumas tendas armadas. O volume de redes e inquilinos repousando ali era menor. Recostaram em uma das paredes. Ghibli removeu a capa de suas costas e estendeu-a no chão, mas, para surpresa de Lucas, não deitou. Remexeu-se um pouco até encontrar uma posição confortável sentado.


— Meu senhor Salvador, tente descansar um pouco. O dia hoje foi exaustivo, mas o mais difícil ainda está por vir. Temos um longo caminho a percorrer até encontrarmos Crânius.


Lucas preferiu não proferir nenhuma palavra. Acenou com a cabeça, retirou a bolsa de suas costas, ajeitou-a no chão e deitou sobre ela, utilizando-a como travesseiro. Cobriu-se com a manta e fechou os olhos. A dor e o cansaço eram tão intensos que acabou dormindo, ignorando os resmungos de seu estômago negligenciado.


No dia seguinte, ao amanhecer, o gnomo cutucou o garoto que, relutantemente, deixou os olhos se abrirem.


O céu não estava completamente claro, as nuvens compunham uma paisagem cinzenta e, ao que indicava, o sol não daria as caras hoje.


Sentou-se com muita preguiça, apesar de ter apagado durante a noite, seu corpo ainda sentia o cansaço da caminhada do dia anterior.


— Bom dia meu senhor Salvador! – disse Ghibli com uma animação fora do normal. — Dormiu bem? Tome logo seu café da manhã que devemos sair à procura do seu par de botas.


O garoto olhou a sua volta. As tendas estavam praticamente vazias, alguns poucos indigentes ainda perambulavam por ali, ajeitando suas redes e preparando-se para mais um dia de trabalho.


Aceitou um pedaço de pão duro que o gnomo ofereceu e pegou uma xícara de chá de ervas forte (gelado, porém, muito gostoso). Ficou em silêncio enquanto tomava seu pobre café da manhã. Sua mente ainda remoia os acontecimentos do dia anterior, inclusive o tapa que seu companheiro de viagem havia lhe dado.


Mal terminou de ingerir o último farelo de pão, o gnomo começou  a arrumar as coisas, colocando tudo de volta na bolsa e agitando os braços freneticamente:


— Vamos meu senhor! Vamos! Não podemos perder mais nem um minuto. O mercado a esta hora do dia já deve estar em ebulição! Precisamos conseguir seu par de botas e seguir nosso caminho.


Lucas preferiu não dizer nada, apesar de querer ficar mais um pouco sentado, descansando. Reorganizou seus objetos na bolsa. Seu estômago proferiu uma ofensa, desejando mais um pedaço do pão duro, mas Ghibli já havia guardado-o e estava inquieto esperando o garoto terminar de se preparar.


Ao saírem da periferia, ele notou que não seguiam pelo caminho que haviam percorrido na noite anterior. O ar e o clima da vila Gedala estavam bem diferentes do que o garoto havia presenciado no dia anterior.


As ruas estavam abarrotadas de gente, carros de boi, crianças pedindo esmola, mendigos adormecidos de maneira tão profunda que pareciam estar congelados e alguns cavaleiros mal encarados, cujo caminho o gnomo prontamente desviou, explicando que se tratava de tenebrosos e eles deviam evitar ao máximo o contato com aquelas criaturas devassas.


Lucas sofreu absurdamente conforme ia passando pelas ruas e vielas. Os aromas vindos de uma confeitaria fizeram com que seu estômago gemesse, suplicando por um pedacinho de qualquer guloseima que fosse. Em frente ao mercado de frutas o menino lutou bravamente com um instinto animal que se abateu em seu interior, ao avistar apetitosas e vermelhas maçãs precisou se conter para não afanar uma e enfiar em sua bolsa.


Seguiam percorrendo caminhos que, se fosse preciso fazer o retorno, ele não saberia como fazê-lo, pois, a cada rua e viela e beco percorridos, o gnomo parecia fazer o percurso oposto, deixando o garoto meio zonzo e bagunçando seu senso de direção que, honestamente, já não era muito bem desenvolvido.


Ao passarem em frente à uma construção com enormes janelas de vidro empoeiradas, ouviram gargalhadas e vozes exaltadas vindos de dentro do estabelecimento. Parecia se tratar de uma taverna. Em frente à porta de entrada havia um corpo estendido, o homem parecia estar completamente embriagado e, em sua mão direita, segurava uma enorme caneca vazia cujo conteúdo prévio parecia ter escorrido sobre a barriga do homem, formando uma crosta de gelo em sua camisa. Algumas crianças que, aparentemente, viviam nas ruas, estavam rindo à custa do bêbado que dormia no chão, jogavam-no pequenas bolas de neve que, assim que atingiam o corpo do homem, faziam-no tremer e esfregar a barba, mas não causavam seu despertar. A cada vez que o homem punha a mão na barba, as crianças gargalhavam como se estivessem vendo o show mais cômico de um circo itinerante.


Após assistirem aquela situação deplorável por alguns minutos, Ghibli puxou seu senhor pela calça de moletom, a fim de rumarem a seu destino. O pequeno Negri tentou protestar, primeiro, porque achou completamente impróprio por parte das crianças atormentarem aquele pobre ser que se encontrava em situação tão infame, segundo, porque o interior daquele espaço parecia ser tão quente e aconchegante que ele queria aproveitar e usufruir do calor humano e do aconchego de uma lareira acesa. Mas seu pequeno companheiro não se mostrou aberto a protestos, seguiu arrastando Lucas pela calça até que ele não resistiu mais e se permitiu seguir o gnomo sem protestar.


— Meu senhor Salvador! Não podemos nos preocupar com banalidades. Devemos percorrer nosso caminho sem parar de maneira alguma, apenas quando formos descansar. Quero chegar o mais rápido possível a Crânius, para que ele nos dê a orientação necessária para agirmos. Estou muito preocupado, confesso, pois, vimos muitos tenebrosos hoje cedo e tenho medo de que eles tomem conhecimento de sua presença.


Ao visualizar em sua mente aqueles guerreiros musculosos, com longas espadas, olhando-o de cima a baixo, Lucas Negri sentiu um arrepio percorrer sua medula. Um formigamento tomou conta de seu interior ao imaginar aquelas mãos enormes ao redor de seu pescoço. Os tenebrosos poderiam acabar com um menino como ele num piscar de olhos.


Entraram numa viela à esquerda de um açougue que exalava um cheiro desagradável. Na entrada do estabelecimento encontravam-se algumas peças de carne expostas, rodeadas por moscas e mosquitos que infestavam o ambiente. Lucas sentiu-se repugnado diante daquela visão, imaginando como seria comer uma carne proveniente daquele local e quais as doenças que acometeriam sobre ele se assim o fizesse.


A viela era um pouco menor em relação às outras que haviam percorrido até o momento. Percebeu que o fluxo de pessoas também era reduzido, bem como a circulação de carroças. Na verdade a viela era tão estreita que carros de boi não conseguiriam passar por ali, apenas cavalos e cavaleiros sem grandes cargas.


— Este lugar parece meio perigoso Ghibli, tem certeza de que podemos ficar aqui em segurança?


— Não, meu senhor; não podemos.


— Então por que você nos trouxe até aqui? Enlouqueceu?! – o garoto imaginou todos os perigos que poderiam estar escondidos naquela viela escura. O ambiente não parecia muito amigável. A iluminação ali era precária. Havia algumas poucas figuras com mantos cobrindo-lhes os rostos. Lucas observou que, ao final da viela, não havia cruzamento ou uma saída visível, parecendo um beco sem saída e, bem no fundo, sob a escuridão das sombras, havia um grupo de pessoas reunidas, trajando farrapos e fazendo acender e brilhar algumas fagulhas que o garoto imaginou serem cigarros.


— Não encare muito aquele grupo meu senhor. Deves tomar cuidado com aqueles que fazem uso de Nico. Eles podem ser perigosos.


— Mas o que é Nico? Nunca ouvi falar sobre isso.


O gnomo pegou a mão do garoto e puxou-o para um canto escuro, sob uma grande janela fechada que, devido ao toldo que a cobria, fazia uma grande sombra na parede.


— Nico é uma substância altamente perigosa. Faz-se um cigarro com ela. As pessoas que a fumam têm grande possibilidade de tornarem-se viciadas, tamanha a potência da substância. Dizem que na segunda vez em que se fuma um cigarro de Nico, a pessoa adquire um vício tremendo. Nico toma conta da vida do sujeito, fazendo com que definhe, fique mais magro e faça todo o possível para conseguir a droga. Por isso é preciso se precaver e tomar distância quando encontrar um usuário de Nico, eles não raciocinam de maneira lógica e vão tentar de tudo para conseguir dinheiro ou algo para trocarem pelo cigarro de Nico.


— Então o que estamos fazendo aqui no escuro se já vimos que tem gente usando esse tal de Nico ali no fundo? Vamos sair daqui agora! – o garoto quase se desesperou, imaginando a possibilidade de ser assaltado e ter a vida colocada em risco mais uma vez.


— Não se exalte meu senhor, senão vai acabar atraindo atenção para nós! – O gnomo ficou na ponta dos pés tentando pôr um dedo na boca do garoto, sinalizando silêncio — Atenção é tudo o que não precisamos agora. Infelizmente, o local em que temos de estar neste momento é aqui, sendo isso favorável ou não, prazeroso ou tenebroso. É aqui que encontraremos seu par de botas e, assim, poderemos seguir em nossa jornada. Agora venha, não olhe mais para os fumantes de Nico e vamos entrar logo no covil de Drigoro.


O menino preferiu não abrir a boca para questionar quem era Drigoro e como ele poderia ajudá-los na obtenção de um par de botas, sendo que nenhum deles tinha dinheiro e, após tanto tempo andando pra lá e pra cá usando apenas meias, seus pés já estavam se acostumando as dores e incômodos causados pelo chão frio.


Caminhando rente à parede para se ocultarem nas sombras, Ghibli e Lucas chegaram à frente de uma porta estreita, quase em frente aos fumantes de Nico. O garoto prendeu a respiração na esperança de passar despercebido pelos perigosos viciados.


A pequena criatura levantou o braço direito, esticando-o o máximo que pôde, tentando alcançar a maçaneta da porta estreita, porém, devido a sua altura diminuta, não conseguiu alcançá-la.


— Senhor Negri, por favor, poderia abrir esta porta? Toda vez que venho aqui é uma grande luta para conseguir entrar e Drigoro não ouve muito bem em meio aos barulhos de sua oficina. Abra para nós, por favor.


— Barulhos? Mas não estou ouvindo nada…


— Por favor, meu senhor, agora não é hora de contestar minhas palavras. Abra a porta para que entremos logo e saiamos daqui; esses fumantes já estão começando a notar nossa presença. Quando entrarmos você entenderá o que eu quis dizer sobre Drigoro.


Evitando outra reprimenda, Lucas abriu a porta e imediatamente foi tomado por uma profusão de sons que chegou feito um tsunami a seus tímpanos.


— Venha, venha, vamos logo senhor Negri. – Ghibli se adiantou, pegando o menino pela mão e puxando-o para dentro do recinto.


Assim que adentrou naquele local, o pequeno Negri ficou momentaneamente cego. A claridade vinda de inúmeras lâmpadas penduradas no teto, bem como refletores espalhados pelo espaço, fez com que o menino fechasse os olhos instantaneamente. A diferença do beco sombrio e escuro em que estavam para este espaço iluminado e barulhento era tremenda. Abrindo os olhos vagarosamente, a fim de permiti-los se acostumarem com aquela luz intensa, Lucas Negri olhou ao redor, procurando identificar o espaço em que se encontrava.


O local parecia com um galpão enorme. Por todo o espaço estavam espalhadas bancadas com diversos tipos de ferramentas, as quais Lucas não era familiarizado. Do teto pendiam algumas correntes, bem como algumas estruturas finas de metal que pareciam se tratar de alavancas ou algo utilizado para elevar objetos do chão. Um fato curioso que o garoto notou é que não havia janela alguma no ambiente. A iluminação era toda artificial. Logo que deram os primeiros passos naquele imenso local, os sons que haviam enxurrado seus ouvidos feito uma onda gigantesca e apoteótica, cessaram. Agora seus passos ecoavam pelo recinto. Mesmo estando amplamente iluminado, parecia não haver muitas pessoas habitando aquele espaço.


— Até que horas vocês continuarão percorrendo meu estabelecimento sem proferir nenhuma palavra? A cortesia é algo de fundamental importância em meu local de trabalho. – Uma voz grave ressoou por todo o ambiente. Apesar do eco que se fez presente, o garoto supôs que a voz vinha do canto direito do galpão. Dirigindo seu olhar até o local onde acreditou ser a origem da voz, Lucas viu uma figura alta por detrás de uma das bancadas de trabalho; havia algumas correntes presas a algo que se encontrava estendido sobre a área de trabalho, junto a várias ferramentas. Ao lado da bancada estavam dois cilindros pendurados por correntes, um grande e um pequeno, uma espécie de mangueira parecia estar ligando os cilindros ao imenso objeto que estava encima da bancada.


— Empreendedor Drigoro! Ghibli seu humilde servidor está aqui querendo lhe falar! – o gnomo elevou a voz, fazendo-a ecoar por todo o ambiente. Encaminhando-se a direção da bancada de trabalho onde a grande massa corporal estava de pé, estática por detrás da bancada, Ghibli acenou com a cabeça para que o garoto o acompanhasse.


Em frente à enorme criatura, Lucas ficou boquiaberto. Ela era descomunal. Alguns palmos de altura a mais que um homem adulto. O menino olhava dos pés a cabeça daquela figura que se agigantou a sua frente. Não devia se tratar de um ser humano comum.


A criatura de nome Drigoro era enorme. Pelos cálculos feitos na mente fértil do menino Lucas, Drigoro devia ter, no mínimo, dois metros e meio de altura. Possuía músculos avantajados e bem desenvolvidos. Braços tão grossos que, pelo que o garoto percebeu, deviam ser da largura de sua cintura. As veias pareciam que explodiriam a qualquer momento, saltavam dos braços grossos de Drigoro feito vermes que serpenteiam por debaixo da terra. A cabeça era totalmente calva, meio achatada, parecendo uma bola de couro amassada. Sobre os olhos um par de óculos com lentes de aumento causava um efeito grotesco a sua face (que, por natureza, já não era das mais agradáveis de olhar). Os olhos de cor púrpura pareciam dois grandes ovos de galinha, aumentados ainda mais pelo efeito das lentes dos óculos. Mas, para o garoto, o que mais chamou sua atenção foi a coloração da pele de Drigoro. Sua pele não era de nenhuma nuance que o garoto já havia visto antes. Um tom avermelhado, parecendo barro vermelho, cobria todo o corpo da criatura. Em consonância ao par de olhos púrpura, disformes por conta das lentes de aumento, a pele naquela enorme criatura era algo, no mínimo, grotesco.


— Mas que raios é isso!? – exclamou Lucas Negri, ainda boquiaberto perante a grandiosa figura.


— Pequeno goblin, falarei pela segunda e última vez: a cortesia é extremamente importante em meu estabelecimento. Se tiveres amor por sua vida, irá dirigir-se a mim com mais polidez e refinamento. – a voz grave atingiu o garoto, fazendo seus pelos arrepiaram e seu sangue gelar em suas veias. Um leve tremor formigou em suas entranhas ao imaginar aqueles braços gigantescos proferirem um golpe contra seu rosto.


— P-perdão… – a voz do garoto saiu falha e esganiçada.


— Mil perdões, empreendedor Drigoro! – fazendo uma reverência afetada, o gnomo interrompeu-o antes que terminasse de expelir seu pedido de desculpas. — A pobre criança não sabe o que diz. Mas tenho certeza que compreenderá; o garoto não é daqui e nunca tinha visto um gangi  de perto. Perdoe-o, por favor, ó grande empreendedor!


Gangi? A mente do pequeno Negri mergulhou em suas lembranças e memórias a fim de buscar uma referência para aquele termo, mas a busca foi em vão. Concluiu que, definitivamente, não estava mais em seu mundo (se é que ainda restava alguma dúvida disso). Baixou a cabeça sentindo o rosto ruborizar e em seu interior uma súplica pedindo que saísse dali o mais rápido possível.


— Ghibli? Ah seu pequeno charlatão! Perdoarei a gafe dessa criança só porque você é quem está me pedindo e, em todos esses anos, tens sido um de meus servidores mais hábeis e leais. Agora venha cá! – Drigoro abaixou-se utilizando as enormes mãos para levantarem o gnomo do chão, apertou-o de tal maneira num forte abraço afetuoso que, pelos músculos e veias que tinha em seu corpo, se ele fizesse um por cento mais de força seria capaz de estourar os miolos do pequeno Ghibli.


Pondo o gnomo de volta ao chão, Drigoro dirigiu seu olhar para o menino que permanecia cabisbaixo.


— Bom, e como você se chama criança? – esfregou os cabelos do menino com uma de suas enormes mãos, fazendo-o tremer. — Olhe para mim, vamos, não precisa ficar com medo. – Aquela voz grave falando de maneira tão mansa aos ouvidos do garoto, que há poucos minutos temia ser esmagado pelas gigantescas mãos, fez Lucas levantar o rosto, ainda um pouco relutante, e encarar os grandes olhos de cor púrpura projetados por detrás das lentes de aumento.


— M-meu nome é Lucas Negri.


— Muito prazer Lucas Negri. Seja bem-vindo ao Desmanche. Meu nome é Drigoro, como você já deve saber, e sou o proprietário do local. Em que posso lhe ajudar hoje?


Sem saber como responder a questão, Lucas permaneceu olhando para a enorme face de Drigoro, sustentando o olhar do enorme gangi que parecia mergulhar em seu interior, penetrando com seus olhos púrpuras a cabeça e os pensamentos do garoto.


— Empreendedor Drigoro – Ghibli interveio — você está sozinho aqui? Preciso saber se é seguro falarmos abertamente, temos um assunto muito sério a tratar contigo. Sei que posso confiar em sua discrição e, acima de tudo, em sua fé na salvação. Mas precisamos de um local seguro e que ninguém nos ouça conversando.


Uma ruga de preocupação se formou na enorme face do gangi que olhou do gnomo para o garoto e do garoto para o gnomo.


— Vamos até meu escritório. Hoje ninguém está trabalhando aqui, apenas eu. Mas, se o que tens para dizer é tão sério, prefiro que estejamos entre as paredes de minha sala, lá estaremos confortáveis e seguros e vocês poderão me explicar o que está acontecendo e o que os trouxe aqui em meu Desmanche. – dirigindo-se ao fundo do local, Drigoro acenou para que Ghibli e Lucas o seguissem.


Adentraram a sala de tamanho mediano. Havia uma larga mesa de madeira rústica rente à parede central, com uma grande poltrona de madeira acolchoada de couro vermelho por detrás da mesa; paralelas à poltrona e do outro lado da mesa estavam duas cadeiras enormes. Nas duas paredes laterais havia grandes armários de metal; o da parede direita estava envolto numa grande corrente que parecia ter anos de existência, prendendo os elos da corrente, dois grandes cadeados mantinham a abertura do armário livre de invasores. O armário que estava na parede esquerda não estava fechado com correntes e cadeado, encontrava-se aberto, expondo diversos objetos que Lucas não conseguia identificar completamente, mas, dentre os que identificou, observou um grande martelo de pedra, cujo cabo era feito de uma madeira escura e lisa, parecida com ébano; viu também um grande capacete, que parecia se tratar de um elmo de batalha que, pelo tamanho da circunferência, só podia ser utilizado pelo grande Drigoro, porque numa cabeça de tamanho normal, o capacete provavelmente ficaria frouxo.


— E então, qual o problema? – perguntou o gangi, após ter sentado na poltrona vermelha.


— Meu pequeno companheiro e eu estamos numa jornada – iniciou o gnomo — rumo ao encontro de Crânius, o sábio. Saímos depressa de minha casa e, devido a minha estatura, não tive nenhum calçado para emprestar ao meu senhor Lucas, apenas estes pares de meia que, honestamente, não foram feitos para percorrerem grandes jornadas e ainda acalentar os pés ao toque do chão frio. Portanto, grande empreendedor Drigoro, pedimos que nos dê um par de botas para que meu jovem companheiro possa seguir viagem sem correr o risco de ter os pés congelados ou feridos durante o caminho. – A voz do gnomo soava respeitosa e solene; parecia haver uma grande cumplicidade entre Ghibli e Drigoro, algo que só se alcança depois de muitos anos de amizade.


Fez-se um silêncio abrupto no escritório do gangi. Lucas, que durante a fala de Ghibli manteve os olhos fixos encarando o chão, incomodou-se com aquele vazio auditivo e levantou os olhos para observar o gnomo.


Uma gargalhada trovejante ecoou pelas paredes do ambiente. Sobressaltando o menino e o gnomo.


— Um par de botas? Vocês fizeram todo aquele suspense e mantiveram todo esse ar de mistério por um par de botas? A expressão de vocês era de quem estava correndo grande perigo de vida, mas, na verdade, era apenas medo de congelar as canelas secas desse guri! – Drigoro gargalhava e batia com a mão direita sobre a mesa. Lágrimas grandiosas formaram-se em seus olhos de tamanho descomunal por detrás das lentes de aumento. Ele ria como se tivesse presenciado o cúmulo da comédia.


O garoto não conseguiu conter um sorriso. Seria cômico se não fosse trágico. Não só o fato de ter vagado pela neve utilizando meias emprestadas por um gnomo, mas toda aquela situação de Salvador do Império e detentor do poder. Mas qual poder? Até agora o gnomo ainda não tinha te explicado a fundo e, ao que parecia, não tinha intenção de compartilhar com Drigoro os assuntos relacionados à profecia e a possibilidade de Lucas ser o Salvador.


— Sim, grande empreendedor Drigoro. Sei que pode parecer ridículo, mas a saúde é um assunto muito sério. Você sabe como prezo pela qualidade de vida e segurança de meus amigos, portanto, não há de estranhar o fato de eu querer proteger essa pobre criatura – apontou para Lucas com a mão esquerda de maneira afetada – da possível perda de seus pés para o frio congelante!


Recompondo-se da crise de risos, Drigoro retirou as lentes de aumento da face, enxugando as lágrimas que haviam brotado em seus olhos.


— Sim, sim, meu pequeno charlatão! Conheço-te e entendo muito bem suas boas intenções. Mas a situação foi hilária, não podemos negar. Agora me diga criança – falou olhando para o menino Negri que, até aquele momento, parecia ter sido esquecido na sala – qual número você calça? Se minha intuição está certa, você deve usar sapatos tamanho 37, estou certo?


— Como adivinhou? – exclamou o garoto – Bem, isso não vem ao caso. Sim, calço 37/38. Dependendo da forma pode ser preciso um calçado 39.


— Dependendo da forma? Mas o que você é, um pão? – o gangi gargalhou e, desta vez, o gnomo o acompanhou dando uma pequena risada — Você é hilário moleque. Mas, vamos ao que interessa: o que ganharei em troca ao dar um par de botas para você?


Empalidecendo e sentindo o ar faltar e a garganta secar, Lucas Negri olhou para seu companheiro em busca de orientação.


— Grande Drigoro, não temos muito a ofere… – iniciou Ghibli, sendo prontamente interrompido pelo empreendedor Drigoro:


— Não perguntei a você meu pequeno charlatão. Minha pergunta foi para ele. E então garoto, o que fará por mim como pagamento pelas botas?


— Senhor Drigoro, não temos o que oferecer em troca. Estamos sem dinheiro e nossas provisões são simplórias e escassas, mal dão para sobrevivermos, na verdade, não sei se durarão até encontrarmos Crânius, o sábio. As únicas coisas que posso lhe oferecer são minha gratidão e lealdade. Promete que, assim que possível, irei devolvê-las para o senhor e, se elas estiverem muito desgastadas ou por algum infortúnio ficarem estragadas, prometo que farei o possível para ressarcir seu prejuízo. Se ainda assim eu não conseguir pagar por seu favor, ficarei honrado em servi-lo a fim de quitar minha dívida. – quando terminou de falar Lucas notou que Ghibli estava surpreso e o grande gangi encarava-o com ar austero. Se seus olhos não o enganavam, parecia haver um ar de orgulho tanto no olhar do gnomo quanto no do grande Drigoro.


— Você não poderia ter se expressado melhor meu senhor! – salientou o gnomo tentando conter a euforia e o orgulho efusivo de sua voz.


— Ora, ora, mas parece que temos uma joia rara por aqui. Não sei o que sua história revela garoto, nem como você veio parar aqui em meu Desmanche hoje. Mas, de uma coisa tenho certeza: nosso encontro não foi por acaso. Como dizem por aí: se é amargo no começo… Você é muito mais do que parece, pude sentir isto em sua fala. Depois desse discurso, você receberá o melhor par de botas já visto em todo o Império! Que Ananke o abençoe! – Drigoro abriu uma das gavetas da grande mesa e retirou uma chave dourada de dentro dela. Levantou-se da grande poltrona vermelha e dirigiu-se até o armário que estava envolto em correntes e preso com cadeado.


Tentando espreitar o que havia dentro do armário, tanto Lucas quanto Ghibli ficaram frustrados, pois, não conseguiram visualizar ou distinguir um único objeto sequer, o corpo musculoso e agigantado de Drigoro ofuscava completamente a visão do armário.


— Aqui está! – ainda de costas para o garoto e o gnomo, o empreendedor Drigoro colocou o par de botas debaixo do braço esquerdo enquanto que com o direito prendia novamente o cadeado nas correntes, trancando o armário. Retornando a sua poltrona, pôs o par de botas sobre a mesa e encarou seus convidados com os olhos brilhando de satisfação e euforia.


— Seu martírio acabou. Apresento-vos as botas da salvação!
Os olhos de Ghibli brilhavam, extasiados. Não podia acreditar no que vislumbrava:


— As botas da salvação! Mas como? – o gnomo não retirava os olhos do par de botas, parecia estar presenciando a descoberta da maior riqueza do universo — Como você pode tê-las empreendedor Drigoro? Elas estão perdidas há vários anos, como vieram parar aqui e como sabes que são as verdadeiras?


Sem compreender nada daquilo, Lucas Negri em sua ignorância, perguntou:


— O que são as botas da salvação? A meu ver não passa de um par de botas comum. – Proferira as palavras, mas sem conseguir desviar o olhar. As botas eram de cano alto, pareciam ser feitas de um material grosso, não conseguia distinguir se era couro, borracha ou algo entre as duas matérias-primas. O fato é que as botas, apesar de simplórias, pareciam atrair seu olhar. Pareciam se conectar a ele, mesmo não tendo tocado nelas ainda.


— Não aceitarei que blasfeme em meu Desmanche! Não sei quais são suas crenças e, honestamente, não me interessa saber, mas, não permitirei que um pequeno goblin venha até meu local de trabalho e questione as lendas sagradas e a profecia! – o gangi elevou a voz que, tamanha potência possuía, preencheu o interior do garoto e do gnomo, causando-lhes náuseas.


— Não quis ofender senhor Drigoro. Ainda estou aprendendo sobre a profecia, não sei exatamente sobre o que ela diz, apenas o que ouvi em meus devaneios. De onde eu vim também existem crenças religiosas e lendas, mas, nenhuma delas diz respeito a botas. Só achei estranho o senhor e meu companheiro Ghibli ficarem tão admirados por um par de botas.


— De onde você veio? É impossível que exista em todo Império uma vila ou cidade ou reino ou tribo que não tenha ouvido sobre a profecia. Podem não acreditar nela, mas todos conhecem a história do Salvador e como ele virá calçando as botas da salvação e recuperará o Império da opressão, salvando o povo e subjugando as criaturas demoníacas que insistem em espalhar destruição e desgraças por onde passam. – Drigoro falava ardorosamente, como se estivesse pregando a uma congregação.


— Ignore-o empreendedor Drigoro, ele não sabe o que diz. Agora me responda, como as botas da salvação vieram parar aqui em seu Desmanche?


— Ainda não acabei com você garoto, quero saber de onde vens. Respondendo a sua pergunta pequeno companheiro, a história da chegada das botas aqui é muito longa e cheia de reviravoltas e, pelo que posso perceber, vocês não têm muito tempo para ouvir histórias. O que interessa é que essas são as botas da salvação e, apesar de agora estar repensando o que falei anteriormente, prometi dá-las ao seu parceiro de viagem. – o gigantesco gangi contraía seus músculos enquanto falava, sob a pele avermelhada as veias saltavam, parecendo reagir à voz de Drigoro — Pelos destinos de Ananke, não voltarei atrás em minha palavra. Sinto agora que era inevitável termos este pequeno conflito ideológico para que eu compreendesse meu papel. Não sei o porquê, nem entendo como, mas, apesar de sua ignorância, as botas da salvação precisam ser suas. Talvez meu papel na salvação do Império seja entregar-lhe as botas para que elas viajem consigo e cheguem a um destino onde possam encontrar seu verdadeiro dono e, assim, a profecia se realizar. Ninguém sabe ao certo qual o real poder das botas, apenas que elas são destinadas ao Salvador. Creio que você pequeno Lucas, seja o transportador para que elas encontrem seu destino e possam chegar a seu dono merecedor. Creio que esta seja a necessidade inalterável de minha existência.
Os três permaneceram em silêncio. Drigoro encrava Lucas Negri, que sustentava seu olhar, enquanto o gnomo Ghibli estava mergulhado nas profundezas negras do par de botas da salvação.


Abruptamente levantando-se da poltrona vermelha, o gangi pegou o par de botas, quebrando o olhar hipnótico do gnomo, e contornou a mesa indo em direção ao garoto. Abaixou-se para calçar as botas nos pés do menino.


— A inevitabilidade é uma constante e o destino está traçado desde a criação do mundo por Ananke. Finalizo meu papel e passo a você Lucas Negri a tarefa de auxiliar as botas da salvação a encontrarem o Salvador e cumprirem seu destino. A profecia se concretizará. Pode ser em um dia, um mês, um ano ou um século, mas o Salvador voltará e o Império renascerá.


Assim que encostou a bota no pé esquerdo do garoto os olhos de Drigoro convulsionaram e os lábios embranqueceram.


     O gangi havia desmaiado.


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